Ricardo Salgado »Obrigada por salvarem o meu património»

Ninguém se pode queixar de tédio neste país…A história de Portugal dos últimos 3 anos podia ser resumida nestes curtos minutos de vídeo.
Enquanto todos os media agradeciam a Mário Soares a democracia, Ricardo Salgado, agora detido de novo, escrevia uma carta pública a agradecer a Soares ter-lhe «salvo o património da família». Assim, a frio.
Soares numa das últimas entrevistas – aqui no fim deste vídeo – confirma. A família Espírito Santo estava sem dinheiro, Soares liga a Mitterrand, cujos amigos banqueiros queriam ganhar dinheiro como se ganha num banco – emprestando, ganhando juros. Isto é, sem trabalhar. A produção suja as mãos, vender dinheiro é um negócio limpo…Usura, pura e dura, condenada até pelos padres mais obscuros da Idade Média. A bom da verdade assinale-se que esta política foi feita entre o final da década de 80 e início de 2000 pelo PS, PSD e CDS, mas…cada um tem o seu banco preferido. Foi uma política de regime, a de fazer do país uma bolha especulativa.
Um dia, em 2008, o castelo caiu e os banqueiros de França (e da Alemanha) vieram aos banqueiros portugueses dizer queremos de volta o que emprestámos. Como não havia produção real que acompanhasse essa produção de juros, os bancos faliram. O BES também. Que fizeram? Foram ao salário dos portugueses explicar que tinham que pagar porque havia «risco sistémico». Salgado foi mais sério – o «sistema» em risco era a família dele. Que ele confessa, sem pudor. E quando e onde disse Salgado isto? Em pleno funeral de Soares, numa carta publicada no Jornal de Negócios.
Recordo aos meus leitores que o dinheiro colocado na banca (quase 1/3 do PIB) podia ter sido colocado a criar bancos públicos – não falsamente públicos como a Caixa mas bancos que salvaguardassem os depósitos das pessoas, e permitissem investimento em produção, e no Estado Social, na qualificação da força de trabalho que é o que de mais rico temos. A opção foi porém a de salvar os investidores, mandando a força de trabalho qualificada emigrar. Há sempre opção, o risco sistémico está de facto aí – a Banca está toda falida e os trabalhadores portugueses saem de casa para trabalhar por um salário que, em média, não lhes permite viver com dignidade. Já nem comento o salário mínimo que nem a alimentação de uma família sustenta, quanto mais habitação, roupa, etc.
Ficámos a saber, pela voz do próprio, que os filhos dos portugueses hoje passam frio, comem entremeada, estão apinhados em escolas desinteressantes e vivem em pânico porque 1/3 dos pais estão desempregados, e, de vez em quando estão 20 horas numa urgência, foi tudo em nome de um bem superior: preservar a herança da família Mello.

Ricardo Salgado: «Mário Soares, um grande Português», Jornal de Negócios, 8-1-2017
http://www.jornaldenegocios.pt/…/mario-soares-um-grande-por…

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