Ninguém morre de frio

Ninguém morre de frio. Morre-se da conta de electricidade. E o que é a conta da electricidade? Um documentário leva-nos a conhecer Agáfia – uma mulher, bicho, que vive nos confins da Sibéria para onde a família, perseguida, crente, fugiu. Agáfia está só – pesca, tem um tear, corta lenha, cuida dos animais e reza, reza, reza, contra o pecado. Agáfia pode morrer de frio porque, embora o documentário a procure retratar com um exemplo extraordinário de determinação, Agáfia está reduzida ao seu estado animal – sobrevivência, domínio diário da natureza para sobreviver. Agáfia vive a 3 ou 4 dias de rio! de uma vila na Sibéria, portanto, no fim do mundo. Onde há temperaturas, frequentemente, de 30 graus negativos. E a sua casa está quente. Porque ela apanhou lenha para a aquecer. Agáfia tem a produtividade de um trabalhador pré-revolução industrial – não existem motores, nem a vapor. Tudo depende praticamente da sua energia braçal – a sua história veio a público porque um tumor benigno com vários quilogramas e impede agora de cortar lenha com a mesma força e ela vê-se assim na possibilidade de morrer – só, velha, doente, longe de tudo, pode morrer de frio e de fome. Escreveu então a pedir ajuda, já com 60, 70 anos, não sei. Uma rede eléctrica nacional implica a construção de infraestruturas ao longo de décadas – estão ali concentradas, nas centrais e distribuição, milhões de horas de trabalho de homens e mulheres. Um incremento da produtividade história, com a introdução da máquina e da racionalização produtiva, colectiva. A vapor, e outras. António Mexia, cuja carreira andou entre os governos de Cavaco Silva e Santana Lopes, banca privada e outros lugares mal frequentados, recebe hoje 6800 euros por dia. Dizem-nos que é por ser CEO. Como CEO construiu centrais eléctricas, postos de transformação, sub estações, linhas de média tensão, linhas de alta tensão, de fato de macaco azul, ele é imparável, um trabalhador incansável, há décadas a meter a mão na massa. Quem trabalha é quem tem razão, lá diz a canção.
 
Nenhuma sociedade ocidental vive sem electricidade – há 10 milhões de portugueses dependentes da EDP que foi privatizada só quando esta rede esteve pronta. Tudo o que a EDP dá hoje é lucro, porque a EDP só foi privatizada quando todo o trabalho estava feito. Os custos ficaram todos connosco, em várias décadas. Como remunera capitais nacionais e internacionais (chineses, entre outros, com a exportação de energia, ah país de patriotas!) a «taxa de exploração do trabalho» (extracção de mais valia) aqui em Portugal tem que ser maior. O que significa este palavrão? Que a EDP tem que elevar as taxas fixas, em primeiro lugar; e em segundo pagar mal a quem trabalha (que o digam os call centres sub contratados); e em terceiro que exporta a energia que produzimos – produzimos mas não consumimos porque os salários não permitem pagar o que produzimos. Em Portugal hoje não se vai morrer de frio, mas de falta de consciência (e de revolta) de que os pés quentes de António Mexia – que faz parte do 1% mais ricos do mundo – são as mãos geladas de quem está em casa com uma mantinha, como nem a Agáfia está… na Sibéria de há 1000 anos, em pleno século XXI.
Documentário em acesso no link

 

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2 thoughts on “Ninguém morre de frio

  1. Pois, mas a REN é que tem a concessão de exploração da rede construída com esse trabalho de décadas, não é? E a EDP foi privatizada, ou seja alguém pagou por ela, ao Estado. Aliás ela hoje é propriedade de muitos portugueses. Eu por exemplo. Agora, o que o nosso estado tem feito com o dinheiro que recebeu por esses bens… uma boa questão. Já agora, estamos no mercado liberalizado. Qualquer português tem a opção de acabar com os lucros obscenos da EDP. Basta escolher outro fornecedor de energia. Mas se calhar o preço não desce muito por causa dessas taxas. Se virmos bem quem recebe é o estado. Logo há um padrão. O estado recebe, recebe é muita gente continua de pés frios. E a culpa é da EDP?

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