Tolerância com os pobrezinhos

Os rankings mostram em 1º lugar a reprodução social de classe. Lamento dizê-lo mas não é verdade que tudo é relativo – é verdade que em determinadas escolas os alunos conseguem saber melhor e não é só porque já sabiam em casa. Acredito que em média em casas abastadas as crianças comem e dormem melhor, têm mais confiança e estímulos. Do que conheço de perto têm mais regras, disciplina e auto-controlo (qualidades que quem dirige a sociedade quer, em grande medida, transmitir aos filhos) mas não acredito que lhes ensinem operações matemáticas. Isso fazem professores bem preparados, bem cuidados, bem pagos e em turmas pequenas. O que os rankings mostram é que quem é rico rico fica; para os outros a escola pode ser mais ou menos tolerante, inclusiva, benevolente, mas não vai ser um factor de mobilidade social – isso, todas as estatísticas, sem excepção, o dizem. Filho de sapateiro sapateiro será, filho de banqueiro, banqueiro será. Os sectores médios procuram colocar os filhos no elevador social que lhes permita fugir à proletarização recorrendo a uma forma encapotada de privatização da escola pública – as explicações privadas, que – há muito – quem pode paga. Porque sabe que para um ensino profundo, complexo, a atenção individual é indispensável. Há muitas razões para o insucesso escolar, incluindo a qualidade científica e pedagógica média dos professores, que os sindicatos não aceitam debater (nas pontas há muito maus e há excelentes professores, como se sabe), mas vejam…antes de debatermos este e outros factores temos que todos aceitar este facto: não há um único espaço de ensino de sucesso, um único, que tenha turmas grandes. Isto é, para se aprender e bem, não chega estar numa sala com poucos alunos. Mas é essencial começar por aí.

Turmas de 30 alunos são hoje sem excepção espaços constantes de conflitos, os professores passam uma parte do tempo a fazer isso, gestão de comportamentos. Não raras vezes insolentes, rudes, porque a sociedade urbanizada, com escassos laços gregários, e individualista mudou para pior no que respeita ao respeito (e os professores têm sido estupidamente desrespeitados, por alunos, pais e Ministério). Não raras vezes assisti como mãe com filhos numa boa escola pública a ofensas por parte de alunos a professores que se fossem feitas por adultos eram, e bem, crime. Sobre isto nada se faz a não ser «coitadinho do menino/a». E «coitadinho do professor»? É vergonhoso um chefe mal tratar um empregado e um aluno pode maltratar um professor? Mas também vi comportamentos absolutamente normais de miúdos irrequietos que em grupos demasiado grandes para idades tão pequenas se tornam impossíveis de gerir e os professores não sabem como lidar com essas situações, normais, para os quais deviam estar pedagogicamente habilitados. Não estão, muitos. A escola é para muitas crianças uma chatice, abafante – creio que, em média, para os rapazes ainda é pior pela extensão de horas sem exercício físico.

Há uns meses uma amiga perguntou-me por um bom explicador para a filha de 12 anos porque ela estava num ATL onde eram vários e não progredia. Disse-lhe que o valor que pagava mensal no dito ATL toda a semana era igual ao que pagaria duas horas a um explicador. Aprenderia mais em 2 horas sozinha do que em 20 horas com muitos. Ela aceitou o meu conselho e os resultados chegaram agora – nas notas, na aprendizagem, e no gosto da filha com as aulas. O que mudou? A pessoa em causa sei que é excelente, mas o que faria esta pessoa com 30 alunos de 12 anos numa aula de 90 minutos? Tomaria xanax ou recomendaria ritalina – «é a guerra, ou eles ou eu!» Nas reportagens sobre os rankings duas escolas: na RTP, a de Mogadouro, no fim da lista, porquê? explica a directora que os professores estão envelhecidos!?! (a explicação mais esdrúxula que já ouvi até hoje, remata ainda que «há outros resultados que nos interessam, os alunos são felizes»). A média é 7,5%. Será dos pobrezinhos o reino dos céus! O paternalismo, a caridade. Quem não conhece, como em Mogadouro, o mínimo de língua e matemática não vai  a lado nenhum a não ser para um trabalho super desqualificado. E também não vai ser feliz, quanto muito vai ser ignorante da sua condição. Entre os melhores da lista uma escola de uma zona pobre, de uma região deprimida, Beja – conta a SIC. O segredo? Explica o professor, sorridente, de matemática:  «Somos 15 na sala de aula, permite-me atenção às dificuldades de cada um». E ninguém os escuta? Que estudos de especialistas querem mais? Não podem ouvir cem vezes este professor e concluir?

Um ensino que não reconhece as dificuldades científicas de cada um, individualmente, e trata tudo – mascara tudo, na verdade – com os panos quentes da tolerância e da inclusão não serve para a escola que queremos, uma escola inteira, livre, de saber científico sério, um instrumento essencial de emancipação de quem vive do trabalho. Uma escola cheia de amor e paciência com os pobres não vai fazer com que deixem de ser pobres. Vai ensinar-lhes a ter paciência, tolerância e falta de consciência com a sua condição – e isso é a única coisa que eles não deviam aprender.

http://www.rtp.pt/noticias/pais/agrupamento-de-escolas-de-mogadouro-tem-a-pior-media-do-pais_v970107

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