Estado de Democracia contra o Estado de Excepção

Deixem-me contar-vos uma curta história, sobre Fidel e sobre Leningrado, também pode ser sobre António Domingues e a gestão da CGD – o banco público em colapso.
 
Durante anos pensou-se que só um milagre tinha feito sobreviver alguém ao cerco de Leningrado. Os 900 dias de cerco durante a invasão nazi. Um milagre e também um inverno tão gelado, que permitiu atravessar o cerco pelas águas e levar mantimentos, bem como promover a fuga de alguns milhares, muitos dos quais morreram nessa fuga – há quem fale em 400 mil. Para além do milagre – ou seja, sobreviveram os mais fortes – durante décadas foi contada outra história: ter-se-ia generalizado o canibalismo, os vivos comiam os mortos. E havia muitos mortos, de facto, porque a ração chegou a ser de 500 calorias para operários e 250 crianças, só no primeiro Dezembro do cerco morreram num mês o número de pessoas que morriam em média num ano.
 
Dir-se-ia – como vi aqui muitos defenderem sobre Fídel – que situações de excepção obrigam à mão pesada das ditaduras e militarização, controlo apertado. Pois, sabem o que se sabe hoje? Que Estaline foi obrigado a reconstruir e autorizar os comités democráticos de trabalhadores, aniquilados a seguir a 1928 pela contra revolução Estalinista, para gerirem a distribuição de mantimentos, energia, etc. durante o cerco, de 1941 a 1944. As chefias soviéticas descobriram que sem democracia de base todos se comeriam uns aos outros, não se salvaria ninguém. Que, quanto mais alto é o desafio maior deve ser “a pressão das massas” – como escreveu Che Guevara, num texto que em parte reproduzo abaixo. Que mais dificuldades exigem mais participação e não menos. Sabe-se hoje que o canibalismo foi excepção em Leningrado, que predominou a distribuição gerida e controlada por comissões democráticas da comida e víveres, e que mesmo assim centenas de milhar pereceram.
 
Nada obrigava Fidel a abandonar o internacionalismo, a abandonar o próprio Che Guevara, lembram-se do discurso na ONU «Um, dois, três Vietnames»?; a apoiar a invasão que esmagou a revolução anti-burocrática da Checoslováquia pela URSS em 68; a apoiar o bárbaro golpe em Angola contra Nito Alves, uma luta de fracções pelo poder que acabou num banho de sangue onde os soldados cubanos tiveram um papel tremendo; a calar-se perante a ditadura de Videla a partir de 1976, porque a Argentina tinha rompido o bloqueio à URSS a quem vendia trigo, como lembrou Waldo Mermelstein.
 
Isso não autoriza Trump a sequer pronunciar o nome de Cuba ou de Fidel – que era um casino e uma casa de alterne para norte-americanos, no fundo uma Trumpolândia, com um ditador local a fazer de mordomo, Fulgêncio Baptista, até Fidel, Guevara e os “barbudos” descerem a Havana em 1959. O socialismo é a liberdade e a igualdade, não é a subjugação de um a outro.
 
«Días negros esperan a América Latina, y las últimas declaraciones de los gobernantes de los EEUU., parecen indicar que días negros esperan al mundo. Lumumba, salvajemente asesinado, en la grandeza de su martirio muestra muestra la enseñanza de los trágicos errores que no se deben cometer. Una vez iniciada la lucha antiiemperialista, es indispensable ser consecuente y se debe ser y dar duro, donde duela, constantemente y nunca dar un paso atrás, siempre adelante, siempre contragolpeando, siempre a cada agrasión con una más fuerte presión de las masas populares. Esa es la forma de triunfar.»
Ernesto Guevara
(*) (Publicado en revista Verde Olivo el 9 de abril de 1961)
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One thought on “Estado de Democracia contra o Estado de Excepção

  1. Ninguém se tem como responsável do amontoado de corpos que é o nosso presente e o nosso passado, o silêncio sobre a vida dos outros é também uma demonstração da nossa falta de humanidade. Não vejo nas pessoas vontade de mudar o mundo.

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