A chave da casa da democracia

Ana Nicolau foi condenada a 6 meses de prisão porque gritou dentro do Parlamento dela – os deputados são representantes dela e de todos nós, é preciso lembrá-lo vezes sem conta, o poder é do povo e os deputados são meros representantes, a chave da casa da democracia é nossa – “demissão”. Num país onde durante 48 anos não se podia dizer nada que magoasse a doutrina, estragasse o dogma. Se o tivesse feito cá fora era liberdade de expressão, lá dentro, na casa da democracia, é crime. A Constituição só vigora fora do Parlamento? A ela nada vai afectar, ganha o respeito, a solidariedade de milhares e milhões de pessoas. Ao regime porém não será indiferente. É mais um contributo para a sua erosão, descrédito, espelhado no mais duro golpe que a casa da democracia tem sofrido – a abstenção, ou seja, o doloroso silêncio da maioria dos portugueses que acha que nem um grito o Parlamento merece porque aquela não é afinal a sua casa mas um palácio longe da vida comum das pessoas comuns e onde o espaço para a demagogia, a reversão de programas políticos, a quebra de promessas eleitorais, o rasgar de contratos legais como os salários, o domínio da pequena política, tudo embrulhado em juridisquês, uma língua própria de uma “classe” política autonomizada dos cidadãos, não tem limites. No Parlamento português já ouvimos de tudo, sem decoro, cada vez ouvimos menos os portugueses, que são uma entidade patriótica para compor o discurso político de um clã que, a bom rigor, numa democracia a sério, deviam estar a trabalhar, como nós, e exercer o cargo político sem exclusividade e a tempo parcial – talvez tivessem escutado a voz de Ana e o silêncio de 5 milhões de portugueses. O respeito político ganha-se, não se impõe com a força do Estado e dos tribunais. Uma nota final: a cobardia política desta nova geração de gestores do aparelho intermédio do Estado: o processo é individual, sobre ela, porque jamais o fariam sobre o conjunto dos que gritaram. Cavalheiros assim só vão para a guerra quando são 5 a bater num, quando é 5 contra 5 ficam calados, e assobiam para o ar. É o ar destes tempos.

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