Comentário ao comentário de Miguel Sousa Tavares

Escutei em comentário Miguel Sousa Tavares na SIC referir que o desemprego não pode explicar Trump porque é um número baixo, 5%.
Algumas curtas notas sobre esta afirmação.
1) O desemprego não se mede só em números, embora eles sejam importantes, porque:
2) Os empregos criados desde 2009 são com salários mais baixos.
3) Quem está empregado tem medo de ficar desempregado porque o risco de ser substituído por quem está desempregado é maior.
4) A mobilidade social caiu a níveis pré-crise de 1929 – o mito do homem pobre que se faz rico por um golpe de sorte já nem nos filmes vinga. Não é só o desemprego mas a perspectiva de não encontrar emprego que actua sobre escolhas políticas.
5) O departamento de Estado norte-americano usa 6 metodologias para medir o desemprego – a mais baixa dá 5% a mais alta 10%, porque inclui desencorajados, etc. 10% é a taxa real de desemprego, mesmo depois da recuperação das taxas de lucro em 2009 – isto porque o investimento é baixo, ou seja, o capital não está a retornar à produção, mas a fugir dela e refugiar-se em títulos, outro, etc.
6) Os EUA não têm Estado Social. Até 2008 o desemprego era residual e, embora existisse uma grande rotatividade no mercado de trabalho (fácil despedir, fácil empregar), as pessoas estavam empregadas e, por via do emprego, tinham acesso a protecção social. O Obamacare é feito pós crise justamente porque estas pessoas ficaram sem rede.
7) A rede assistencialista é hoje o programa do Partido Democrático – food stamps. E isso é um programa desastroso junto dos operários do norte que, e bem, defendem empregos em vez de caridade. Não muito diferente dos partidos de esquerda na Europa, campeões da defesa do assistencialismo, em vez da dignidade de viver do trabalho – estão assim as políticas social democratas. 8)

Houve 2 candidatos com força nos media – excluo partidos socialista radicais com pouca expressão – que defenderam «jobs, jobs, jobs», Trump e Sanders, nem as medidas proteccionistas de Trump nem as keynesianas de Sanders vão tirar os EUA da crise, porque a lei da gravidade está aí, com a subida do custo unitário do trabalho e a queda da taxa de lucro, ou seja, a acumulação de capital a enfrentar os seus limites objectivos – não são limites políticos, isto é, o capitalismo não morre porque o capital se destrói a si mesmo, agarrar-se-á a tudo, inclusive a uma nova guerra mundial.

Voltando ao início, afirmar que o desemprego é irrelevante porque é de 5% é superficial, não informa, não ajuda a compreender a dimensão do problema gigante que é, numa palavra, a população que trabalha sentir a sua vida ameaçada e não vislumbrar alternativa política ao nacionalismo. Trágico, mas expectável. Aposto as minhas fichas não nos movimentos sociais mais pobres mas no sector organizado dos grandes sindicatos, que ainda estão protegidos por salários correntes de 6 mil euros na indústria, logística e transportes nos EUA – se este sector não reagir organizadamente a tragédia é inevitável porque os movimentos sociais mais pobres por si não têm força para mudar a relação de forças política.

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