Dos EXs.

Em Portugal e no Brasil fez hoje sucesso entre milhares de pessoas a carta do actor Gregorio Duvivier à ex-namorada. A carta em si não tem grande interesse – na minha modestíssima opinião. Sou fã do Porta dos Fundos, estou perdoada. É uma carta sobre as músicas que ouviram juntos e o amor de um jovem adolescente – não é naturalmente uma carta sobre os momentos mais bonitos da sua história de amor adulta, feita, como todas as verdadeiras histórias de amor, de intimidade, intensidade, amor, muito amor, cuidado, erros, reencontros, crises e grandezas, coragem, não é, certamente a mais bela carta de amor que ele lhe escreveu, porque essas estão na mão dela, não estão publicadas na Folha de São Paulo. Mas a carta tem algo de especial, muito especial. Ela é uma carta para a ex-namorada. Com quem a relação está terminada. É uma carta que termina dizendo foi “uma linda história de amor”. E nós vivemos num mundo onde a maioria dos ex-casais se odeia, na pior das hipóteses, ou se ignora, na melhor. Pessoas que partilharam a intimidade, o amor, foram felizes juntas, muitas com filhos e não sabem nem querem saber um do outro. A mim sempre me surpreendeu que um casal que se divorciasse tivesse que avisar “separámo-nos, mas somos amigos”, uma vez que eu deduzo que alguém que foi casado com alguém no mínimo contínua muito amigo. A maioria porém não fala com o ex, não fala do ex, que passou a ser um morto-vivo, um fantasma, proibido de frequentar os mesmos lugares, deixou de ser acolhido na família onde almoçou por anos – os actuais aliás normalmente vetam a entrada dos exs…e quando os actuais e os exs se dão bem o caso é “estranho”, a comunidade não compreende bem o comportamento “excêntrico”. É que cuspir uns nos outros, nem que seja em palavras, mal dizendo o ex, já é “normal”. Comum. Porque comum é nalgum momento da vida em comum termos cometido erros graves e não termos tido a grandeza de recuar, pedir perdão ou perdoar, corrigir, aprender. Cada caso é um caso mas são tantos casos que não sabendo a origem conhecemos a conclusão: a degradação das relações afectivas é generalizada, muito maior do que a nossa vista alcança e a nossa mente compreende. Não sei se GD a escreveu por isso, mas em mim teve esse efeito, de reconhecer a marginalidade – mas ainda assim a existência – de relações saudáveis, pessoas sãs, e eu fico sempre feliz cada vez que me cruzo, numa folha de jornal ou numa esquina da rua, com pessoas sãs.

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