Asia Anta

Asia Anta, guerrilheira curda, morreu hoje em combate contra o ISIS. O melhor que a imprensa conseguiu, unanimemente, referir foi que morreu a “Angelina Jolie do Curdistão”. No Independent, por exemplo – e é um jornal sério que levo a sério – , nem no título nem na entrada da notícia conseguimos saber o nome de Asia – só no corpo do texto, porque o título refere-se a Angelina Jolie. É este o tempo em que os assuntos sérios são tratados como novelas, e nas novelas se fala de temas sérios. Em que se torna ténue a fronteira entre ficção e realidade, entretenimento e informação. Morreu uma guerrilheira curda do PDC, um organização muçulmana, nacionalista, mais ligada aos EUA, numa acção de guerra contra um Estado islâmico – que já ninguém sabe o que é exactamente, sequer se existe enquanto tal; o papel actual da Turquia nos bombardeamentos cirúrgicos aos curdos é denunciado em sites marginais de ONGs e partidos de extrema esquerda; quem contínua a financiar o ISIS?; qual a diferença entre o PDC e o PKK, o Partido dos Trabalhadores do Curdistão; qual a história destas mulheres, a dela, que se tornou militante disciplinada e organizada de um partido político e de um exército de libertação, com 22 anos -, altura em que os jovens da Europa entram na 1ª de dez depressões, ataques de pânico e fazem o primeiro interrail, que narram como a grande experiência de responsabilidade e risco da sua vida…
Citei alguns dos muitos temas centrais que a sua morte podia ter levantado. Ficámos porém…em Hollywood. Uma vez Sokal, físico, em Coimbra, num debate com Boaventura Sousa Santos – o intelectual de esquerda referência do pós-modernismo, portanto, do relativismo científico (e político), em Portugal – Sokal, dizia, desafiou-o publicamente, com um sorriso provocatório a enfrentar a lei da gravidade mandando-se de uma janela, para ver se era uma narrativa…
A propósito recomendo o livro Showrnalismo, A Notícia como Espectáculo, de José Arbex Júnior.

unknown

Advertisements

7 thoughts on “Asia Anta

  1. É bonita, é parecida connosco, é fácil de se sentir a perda, que imperfeição a nossa pensarmos a diferença como distancia. Ela é só mais uma vida que não tinha que ser assim, como tantas outras que continuamos a negligenciar, o que vemos são pessoas entregues à sua sorte a lutar com o que têm de mais precioso, a sua própria vida.

    Só a completa subversão de valores permite a mistura entre o essencial e o acessório.

  2. “Boaventura Sousa Santos”… O tal que, no início da década passada, fazia as críticas mais inócuas possíveis ao fenómeno da “globalização”, na imprensa que mais tarde me apercebi estar imensamente controlada, enquanto eu e outros protestávamos nas cidades onde ocorriam as grandes cimeiras… Imprensa controlada (/de massas) essa, que já nem sou capaz de ler, por não considerar ser a mesma melhor do que papel higiénico.

    (Atenção, que o “The Independent” e até o mais conhecido – e falso esquerdista – “The Guardian”, cujo conselho de administração faz parte do Clube Bilderberg – ht*ps://www.theguardian.com/world/blog/2010/jun/10/bilderberg-2010-out-of-darkness#comment-5943806 – fazem parte dessa mesma imprensa controlada.)

    Sobre Asia Anta,

    Obviamente que aos média de massas não interessa retratar o quão séria é a luta das mulheres e dos homens do PDC. Pois, o que interessa a quem controla esses mesmos média, é que continuem as massas mais preocupadas com celebridades e outros assuntos frívolos e não se interessem por essa história do “activismo” – termo este, que continua a soar como uma palavra estrangeira, ou termo importado, no nosso país.

    Se for um “refugiado” que morre, aí sim: Ó coitadinho, não era capaz de gastar o mesmo dinheiro, e arriscar a mesma vida, a lutar contra quem o oprimia. (“Hei, carneirada, é assim é que se faz. Fugir para onde os outros lutaram e quem fique para trás que se lixe.”) “E, a propósito de lutar, que tal aquele último filme de guerra que passou no cinema? Excelente, cheio de efeitos. Quando o vejo é como se estivesse lá eu também a fazer aquilo tudo.”

  3. Para quem quiser saber/constatar o quão séria e consciente é a luta das mulheres, em particular, das YPJ/PDC, deixo aqui a hiperligação camuflada para um muito bom artigo, publicado num dos mencionados sítios marginais que existem na Internet:

    ht*ps://roarmag.org/essays/yazidi-women-genocide-resistance/

  4. E, para quem quiser saber da cumplicidade existente entre o Ocidente e o seu grupo-fantoche conhecido como ISIS (a.k.a. Israel Secret Intelligence Service), deixo aqui as duas seguintes hiperligações:

    ht*p://blackfernando.blogs.sapo.pt/quem-realmente-esta-por-tras-destes-85197
    ht*p://blackfernando.blogs.sapo.pt/xiitas-ganharam-pela-terceira-vez-19547

  5. De facto, é mais inócuo falar dos “coitadinhos”, que apelam à nossa emoção e indignação, em vez de mostrar lutadores. Ao mostrar lutadores e falar a seu respeito, quem vê/lê podia começar a interrogar-se o porquê da ausência de lutadores por estas bandas, redescobrir como se luta e as implicações associadas. Tem razão quanto à ausência da história do activismo, muitas pessoas nem têm noção de como surgiu o direito à greve, ou as 8h de trabalho diário.
    A luta não está organizada, nem convém organizar-se, todas as estruturas que a enquadravam desapareceram. A sociedade é grande, mas os indivíduos estão sós – tirando “os de cima”, claro.

    • Está a sugerir que a emoção e a indignação, nos termos em que se refere, são menos instigadores da mudança do que a simples comparação?

      • De todo, apenas que as emoções se perdem e esbatem num deserto de onde a luta não faz parte. É uma estratégia que pretende fazer crer que o sofrimento é inevitável e apenas a fuga é opção, mas jamais a luta.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s