As nossas avós

Portugal urbanizou-se tarde – o salto qualitativo é nos anos 60 do século XX. Quase todos crescemos ainda com um pé na aldeia, nas férias. Vivemos de perto com avós que tinham estudado 3 a 4 anos, que não saíam de casa sem lenço preto ou cinzento na cabeça e que depois de viúvas não vestiriam, por largos anos, outra cor que não o preto. Não precisamos ser relativistas. Aquela roupa era mais atrasada historicamente do que a da minha geração, porque ela representava uma sociedade mais desigual, com mais escassez. Nas aldeias, a divisão da propriedade, isto é, o divórcio, sem Estado Social, com a produtividade dependente da mão que agarra a enxada, podia significar a indigência. Ou se vivia junto, partilhando recursos essenciais – terra e casa – ou se caía na miséria. Portanto, são criados mecanismos de evitar a divisão de bens, os divórcios, a Igreja e a moral conservadora vêm ritualizar situações objectivas dos limites políticos e materiais de uma sociedade atrasada. Da mesma forma que hoje as relações superficiais são a essência da rotatividade laboral – o outro lado da vara, o que era imutável passou a não existir porque o tempo não permite. Trabalho precário, relações precárias.
As nossas avós, que nem descontaram para a Segurança Social porque não tinham como, sustentaram com baixos preços agrícolas o desenvolvimento industrial, e os seus filhos estudaram, estudaram tanto que a produtividade subiu 5 vezes, a isso juntou-se a revolução, o Estado Social, a segurança no emprego e portanto, a pouco e pouco, lentamente, abriram-se as portas a relações afectivas de escolhas. Ama quem já tem cabana, sem isso não há amor.
Conto sempre, emocionada, que devo aos meus pais e a todos os que pagam impostos o que sou. Mas, sobretudo, quem fez o maior esforço económico para tal – não tenham dúvidas! – foram os nossos avós , os camponeses que suportaram o desenvolvimento industrial das cidades e a possibilidade de estudar. Na verdade é assim: os avós trabalharam como ninguém, os pais fizeram a revolução e impuseram que esse trabalho fosse para o Estado Social e nós crescemos como ninguém, com tudo pronto. Fiz 2 pós-doutoramentos, palavra que os camponeses nem sabem pronunciar. Havia 30 mil licenciados na década de 70, há 1 milhão e 300 mil hoje. Isso merece que eu tenha muito respeito pelas minhas avós, que estudaram até à 4 ª classe, muito respeito. E esse sentimento, que todos os filhos tiveram em 1974, fez instituir a pensão para não contribuintes, que reparava, ainda que pouco, os dias de enxada na mão a produzir abaixo do custo para manter os salários baixos industriais do milagre económico dos anos 60. O «milagre» foram elas. As minhas e as vossas avós e avôs. A vida das nossas avós foi pior do que a nossa, mas «libertá-las» era impossível. Tirar-lhes o lenço da cabeça era uma violência. Não sei se souberam como nós o que era uma relação de amor a dois, igual. Quer isto dizer que não devemos fazer nada? Devemos, sim. Obrigar os nossos Governos a levar ao Médio Oriente o desenvolvimento económico, apoiar partidos progressistas. Os mesmos governos que, em vez disso, protegem com bombas nos países limítrofes uma economia rentista de uma família parasitária (Arábia Saudita) que nem de enxada trabalha, vive em cima de poços de petróleo e escravos a abaná-los – é essa economia, mais do que Alá, que tapa a cara e o corpo destas mulheres.
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3 thoughts on “As nossas avós

  1. Pingback: As nossas avós | Artigos Científicos e Acadêmicos

  2. Nem para todas as mulheres que hoje usam lenço e burka seria uma violência tirá-los. Muitas ainda se lembram da violência de serem obrigadas a começar a usá-las tendo, ao contrário das nossas avós, crescido em liberdade.

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