Sobre História

Não vai haver força política do movimento operário para resistir ao golpe de 28 de maio de 1926 que institui a ditadura militar, começando em 1933 o Estado Novo de Salazar por fatores que outra vez combinam consenso e coerção, cedências e repressão. Este movimento operário estava exaurido por anos e anos de repressão na I República e consegue tornar a República ingovernável, mas não consegue governar. Por outro lado, para além da repressão ao movimento operário, a rutura deste com a República é lenta porque os setores mais audazes e formados das classes trabalhadoras estavam protegidos, sobretudo por associações mutualistas. Há, como em todas as bases sociais dos regimes, políticas de consenso e coerção — uma parte dos artesãos/setores médios estavam protegidos por um sistema corporativo.
A disciplinação da força de trabalho, a concentração de riqueza protegida da concorrência e a exploração colonial baseada no trabalho forçado são a fórmula de sucesso e durabilidade do Estado Novo , onde verdadeiramente se moderniza o capitalismo português. Já existia antes Portugal, já existia antes capitalismo, mas não modernização. Ela é filha direta do regime bonapartista, a ditadura, engenheiro político do processo de modernização, que combina isso com um arranjo político das forças sociais em que o Estado se coloca como árbitro nesse momento de giro económico.
Os sucessivos regimes vão organizar, em resumo, a dissociação entre trabalhadores e meios de produção (transformar camponeses em proletários), mas nenhum foi tão eficaz nisso como o salazarismo, sobretudo a partir da mecanização agrícola da década de 60 do século XX.
O Estado Novo realiza a incorporação controlada do proletariado na vida pública, dando-lhe lentamente acesso à escola, saúde, etc. O proletariado cede por isso (consenso) mas também pela coerção (ditadura); o núcleo duro do movimento sindical, os melhores e mais aguerridos dirigentes tinham sido eliminados ou cooptados pela República. Este proletariado que se submete e “aceita” o Estado Novo está politicamente decapitado e do outro lado há todo um mundo camponês com crença no Estado, sem organizações próprias. Assim se explica a incorporação do proletariado na ordem que vai garantir a sustentação social da modernidade da ordem capitalista. Junte-se a isto um processo de êxodo — e expulsão — rural e urbanização, a partir dos anos 50 e sobretudo 60, em que essa massa camponesa chega à cidade. Boa parte dela é miserável, por isso há aqui também uma combinação de mobilidade social, emprego e consumo, atuando como um elevador social, nesta passagem da cidade para o campo.

Raquel Varela , Felipe Demier, Valerio Arcary, In O Que é Uma Revolução. Teoria, História e Historiografia (Colibri, Lisboa, 2015)

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