«Para o júbilo o planeta está imaturo»

É possível tirar a memória às pessoas. É comum, aliás. «Para o júbilo o planeta está imaturo». Maiakovsky escreveu a Iessenine, quando este se suicidou. Os dois poetas entusiastas da maior revolução da história da humanidade, que está quase a fazer 100 anos, acabariam suicidados pela contra-revolução estalinista. Iessenine sucumbiu antes. E Maiakovsky, que percebia o retrocesso imparável da revolução, uma vez que a Alemanha estava na marcha para o nazismo, dedicou-lhe este poema – «é preciso arrancar alegria ao futuro». Estive em São Petersburgo. Da memória da revolução não há quase nada, sobra um nacionalismo sem oposição que idolatra Putin, estampado em babuscas, a cavalo de um urso; Estaline, o homem que mandou assassinar todo o comité central da revolução e a cúpula do exército vermelho nas vésperas de 39 é…o herói da II Guerra (o homem que não evitou a guerra virou o herói da guerra…), e vende estátuas; e Nicolau II, que vivia em cima do maior regime de servidão de então, esse é o mais querido: porta-chaves, t-shirts, lenços, pinturas. O resto «desapareceu», primeiro nos processos de Moscovo, depois, até hoje, dos livros, das ruas. Que acharia Tolstoi que deu as terras aos camponeses deste revivalismo do nepotismo russo oitocentista? Na praça do Palácio de Inverno colunas de chineses do país do «comunismo» anseiam por ver os lustros de ouro do Palácio. Estava com a Luisa Barbosa e disse «vou gritar Mao Tsetung para ver se conseguimos passar! Eles devem ouvir e vergar-se!». Rimos, muito, rimos de tudo, rimos para não chorar, neste país onde o passado foi varrido, uma limpeza da história angustiante. Não sou destas fotos icónicas, simbólicas – as acções organizativas são a minha régua de medição da bondade dos outros, erguer de punhos, estrelas e músicas não aquecem nem arrefecem nada, nem a nossa consciência almofadada, mas no dia 9 de Janeiro de 1905 deu-se aqui nesta praça o Domingo Sangrento onde manifestantes foram apresentar uma petição ao czar numa manifestação pacífica e foram baleados pela guarda imperial. Morreram mil a quatro mil operárias e operários das fábricas. Nada na praça o lembra, porque é melhor meter no mesmo saco confuso revolucionários e carrascos, dizer que é tudo igual, para tudo parecer impossível de distinguir e pensarmos «melhor assim, com Putin a cavalo num urso, que pode ficar pior…». Viemos de longe, quem não sabe que hoje dá por adquirido certos direitos – políticos e sociais – porque no passado alguém lutou e morreu por eles está condenado a perdê-los. A minha homenagem aos homens e mulheres do bairro operário de Vyborg, da fábrica Putilov, à oposição de esquerda, assassinada e perseguida pela ditadura de Estaline, aos que me trouxeram até aqui, para fazermos um planeta maduro para o júbilo.

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One thought on “«Para o júbilo o planeta está imaturo»

  1. “a maior revolução da história da humanidade, que está quase a fazer 100 anos”

    A Revolução Bolchevique foi obra de banqueiros e industriais estadunidenses, que financiaram e controlavam o Trotsky, o Lenine e afins:

    ht*p://reformed-theology.org/html/books/bolshevik_revolution/

    (Sendo o Estaline uma peça não controlada, que inesperadamente se apoderou do rumo da revolução e que a deturpou, em grande parte.)

    Este facto (e não uma qualquer “teoria da conspiração”) foi denunciado há já três décadas, por um Professor universitário britânico que leccionava nos EUA, quando este investigou as ajudas económicas que os EUA davam à União Soviética. Professor universitário esse, cujas obras são até recomendadas pelo ex-Conselheiro de Segurança Nacional estadunidense, Zbigniew Brzezinski:

    ht*ps://en.wikipedia.org/wiki/Antony_C._Sutton

    O principal objectivo de tal operação, para além de obter o controlo do país em causa, era que a Rússia – que, pela sua grande extensão de território e riqueza em recursos naturais, sempre teve o potencial de ultrapassar economicamente os EUA – não adoptasse um modelo de “mercado livre”, que a pudesse levar a uma situação de ser uma séria (contra)potência mundial, que rivalizasse as do Ocidente. E, tendo a União Soviética adoptado o modelo comunista, nunca conseguiu a mesma desenvolver-se economicamente de modo sério e esteve sempre dependente de ajudas exteriores, que faziam das fábricas soviéticas meras sucursais das empresas ocidentais que tinham a tecnologia que a União Soviética não tinha.

    Até a tão publicitada “Guerra Fria” era, em grande parte, um teatro. Pois, o Ocidente podia, a qualquer altura, desmantelar economicamente a União Soviética – a qual dependia do Ocidente até para equipamento e tecnologia militar. (Sabiam, por exemplo, quem é que, em plena Guerra Fria, fabricava os motores dos famosos aviões MiG? A britânica Rolls-Royce! – ht*p://reformed-theology.org/html/books/best_enemy/chapter_06.htm#rolls-royce%20turbojets).

    Como eu digo, isto não é mera “teoria da conspiração” – mas, antes algo que está muito bem documentado e que foi muito bem exposto (em vários livros, alguns dos quais já foram até traduzidos para russo) por um brilhante investigador universitário, que teve de viver o resto da sua vida de modo discreto, por causa do que tinha descoberto:

    ht*ps://en.wikipedia.org/wiki/Antony_C._Sutton

    E, a mesma coisa pode ser facilmente inferida – não estando, no entanto, bem documentada – se investigarmos em que escolas é que teve o Mao Tsé-Tung a sua formação ideológica: ht*ps://en.wikipedia.org/wiki/Yale-China_Association

    Quem conta a História de modo diferente, ou é alguém mesmo muito ignorante, neste aspecto, que só tem acesso a fontes controladas, ou é alguém que faz parte das maçonarias e afins, que estiveram por trás destas operações e que não querem que a Verdadeira História venha ao de cima.

    Quanto ao Putin,

    Ele pode não ser nenhum “santo” nem um “campeão da Democracia”. Mas, a grande popularidade do mesmo explica-se pelo facto de que, ao contrário dos líderes ocidentais, está este governante realmente interessado em desenvolver – e não em destruir – economicamente o seu país. Tendo também ele cuidados, como não permitir mais o cultivo de OGM (ht*p://journal-neo.org/2016/06/30/black-friday-for-gmo-in-russia/), entre outras coisas que revelam uma real preocupação com o bem-estar dos seus cidadãos.

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