A echarpe no aeroporto

Ontem perdi um lenço no aeroporto de Frankfurt. Lindo, azul. Cometi um erro. Trazia na mão a mala – nunca viajo com mala de porão – a mochila nas costas, vinha de 6 dias de viagem por 3 países, uma otite, do vento gelado, uma caminhada no dia anterior de 10 horas em São Petersburgo, e uma hora de sono, à 1 da manhã fomos para o aeroporto. Estava exausta. Feliz, a viagem foi inesquecível, mas exausta. Como estava exausta aconteceu-me o que me acontece quando estou muito cansada -raciocínio mas não actuo, há um lapso entre a minha decisão e o meu gesto, é o melhor que posso descrever, não é distracção, mas ausência. Já o sabia – dos meus colegas que estudam burn out – e respeito muito as horas de sono, por norma, mas desta vez estiquei a corda, vários dias, com 6 voos, 4 deles às 6 da manhã. Olhei para a mão e tinha o casaco e o lenço e pensei «não posso levar duas peças na mesma mão que uma cai e não darei por isso», mas não fiz nada, há um lapso então, podia ter colocado o lenço na mochila, era o que faria se tivesse dormido, andei, sem rumo, e sem sequer olhar, com a cabeça vazia, dez metros depois, 20 segundos, olhei para o casaco e já não estava o lenço… Ninguém das dezenas de pessoas à volta viu, ou se viu nada disse, alguém o levou. Porque procurei, perguntei, insisti, nada. Fiquei chateada comigo, mas hoje pensei no que digo mil vezes aos meus alunos, os últimos eram inspectores ou da área de acidentes e vigilância de trabalho. O último culpado de um acidente de trabalho – a maioria dos mortais são na construção civil e sector industrial – é o trabalhador, porque o erro, no cansaço, é o padrão, é aquilo que sabemos que vai acontecer, não é a excepção. Quando erro no lenço, perco-o; quando erro na escrita, delete e escrevo de novo. Mas quando se erra em determinadas profissões há risco de vida imediato. As regras de segurança ou actuam fora do nosso eixo de controlo ou se dependem do nosso bom senso vão ter que lidar com a nossa falta de senso quando estamos cansados. E estar muito cansado é o padrão regular da utilização da força de trabalho actual – não é em romarias a museus mas na extensão das tarefas, ou das responsabilidades e tarefas, quando se coordena pessoas. Um trabalhador mal alimentado que acorda às 5 da manhã e sobe a um andaime vai ter quanto tempo entre pensar e colocar mal o pé? Está lá um inspector, um cabo que o prende, um colega, ou o acidente vai acontecer.

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2 thoughts on “A echarpe no aeroporto

  1. O livre arbítrio é uma ficção assim como os actos tidos como individuais, a realidade parece incrivelmente complexa já o ser humano parece ser passível de ser replicado ou reproduzido. Esta concepção não agrada a uma maioria que vive centrada em si própria, uma maioria que se tem como essencial, mas não vejo como será possível continuar a ignorar o que a todo o momento parece cada vez mais óbvio.

  2. Só agora tive oportunidade de enviar um comentário, o que lamento. Reconheço, por experiência, que é inteiramente certo o que refere. Conheço casos de autênticos abusos, nessa área, porque o que importa é espremer o trabalhador até ao limite. Sempre sem consequências para quem manda.
    Não competirá à ACT verificar essas condições de trabalho? Faria jus ao título!

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