Os jovens-sofá

O papa pediu aos jovens para saírem do sofá e lutarem pelos sonhos. Há quem ache que os jovens são por natureza revolucionários. Eu não. Acho que não há natureza, há cultura, contexto familiar, conjunturas de vida, ou seja, história. Acho que os nossos jovens – falamos de médias, claro – são seres muito incompletos, com dificuldade crescentes de relações sociais, ou políticas. O desemprego galopante afastou-os da organização do trabalho, mas não só. O colectivo, a noção de produção, é algo que não lhes assiste. Não fazem muito bem ideia do que é o trabalho – mesmo que tenham trabalhado, e trabalhado bem, e mal pagos – porque não dependem do trabalho para viver, dependem do Estado, e dos pais – com os salários que ganham, quando ganham, não conseguiriam viver. E teriam que lutar. Não o fazem porque alguém paga o resto da conta – acreditam que a Segurança Social é o Estado, quando é na verdade a poupança dos pais (só para dar um exemplo da ignorância que têm do valor do trabalho). Em consequência têm um desprezo, consciente ou não, pelo trabalho alheio. Se forem professores de um trabalhador-estudante vão ver como este padrão se inverte – o trabalho e a ausência dele, explica de facto muito. O esforço que estes fazem, e o respeito que têm pelos professores é a dobrar. Em sociedades agrárias era impossível estes desrespeito pelo trabalho alheio – numa pequena aldeia ninguém tem dúvidas de que vivemos todos do trabalho. O respeito pelo trabalho é milenar. A comida não chega do supermercado. Acham normal – dizem as dolorosas estatísticas – com 25 anos pedir dinheiro aos pais. Quando estava na altura de começarem a devolver – na forma de segurança social – os 25 anos que os pais pagaram. Os pais em geral são os mesmos que foram com 18 anos para França, ser robots numa fábrica. E que mandavam dinheiro para os seus pais, mais velhos. Chama-se solidariedade inter-geracional, decência colectiva. Estes, hoje, em larga escala, embora não saibamos qual, estão, como diz o papa, no sofá, a curtir uma intensa pena de si próprios. Afinal o mundo lá fora é culpado de todos os males, e eles são vítimas de um mundo injusto, que não lhe deu o que eles esperavam que lhes desse – esperavam porquê? O que fizeram eles para isso? É adquirido. Está no ADN ter um bom trabalho, embora tenham em cima de si 200 anos de mortos em greves para eles terem a ideia que deveriam ter um bom trabalho.
 
Sou optimista porque confio num abanão social, a única forma de os seres humanos mudarem. Não acredito em mudanças sem crises. Não acredito em mudanças sem que as pessoas sejam confrontadas com os limites. E acho que para a maioria da humanidade o tempo já foi, ou seja, que vieram e saíram da vida sem vida. Por isso os exemplos contrários – de resistência e coerência – são tão animadores, justamente porque eles abrem caminho para o que é impossível. Por isso dediquei a maior parte da vida a estudar revoluções. E revolucionários, em geral os que foram dirigentes mas não ilustres dirigentes – os milhares de anónimos dirigentes. Interessa-me o que é excepcional. Apaixona-me a perfeição na irregularidade, a coragem no medo, as flores que nascem no meio das pedras. Os 200 mil (mais tarde 500 mil) que entraram na resistência francesa ao nazismo, e não os milhões que se calaram. Mas a paixão não nos deve cegar o olhar sobre o passado: a juventude no século XX, depois de ser juventude – porque antes eram jovens trabalhadores -, não é uma categoria com uma essência, como o não é a velhice. A expansão da acumulação e inserção tecnológica galopante, a industrialização das periferias analfabetas na década de 60 exigia uma super qualificação em tempo recorde da força de trabalho que permitiu aos jovens aceder a estudos gratuitos (pagos com impostos dos pais, é certo) e mobilidade social – isso explica mais o Maio de 68 do que ter 18 anos, estou convencida. Universidade gratuita, de qualidade, mobilidade social – nesse caldo objectivo nasceram as lideranças políticas progressistas de diversos matizes. É isso e não a idade. Tenha eu ou não razão é um facto que há 40 anos os pais imploravam para os filhos não irem a manifestações e hoje é o papa – o papa – que tem que implorar que os jovens deixem de vegetar e lutem pela vida.
 
«Durante a vigília, na qual estiveram presentes mais de 1.5 milhões de pessoas, o pontífice falava de “um sofá – como os que existem agora, modernos, incluindo massagens para dormir – que nos garanta horas de tranquilidade para mergulharmos no mundo dos videojogos e passar horas diante do computador”. Um sofá, prosseguiu, “contra todo o tipo de dores e medos”.
Citado pela agência Ecclesia, Francisco frisou que uma juventude “adormecida” só é benéfica para aqueles que querem decidir o futuro dos outros. “É muito triste passar pela vida sem deixar uma marca”, disse, lembrando que ninguém veio ao mundo para “vegetar”. E aproveitou para condenar “outras drogas socialmente aceitáveis”, que fazem com que os jovens fiquem “entorpecidos”.
Para o pontífice, o mundo atual não precisa de “jovens-sofá”, mas sim de jovens “calçados com botas”, que caminhem “por estradas nunca sonhadas”. » DN.
Advertisements

2 thoughts on “Os jovens-sofá

  1. ” Não fazem muito bem ideia do que é o trabalho – mesmo que tenham trabalhado, e trabalhado bem, e mal pagos – porque não dependem do trabalho para viver, dependem do Estado, e dos pais – com os salários que ganham, quando ganham, não conseguiriam viver. ”

    Grande verdade!! Na semana passada um colega meu (21 anos) disse que já teve a part-time mas aceitou a full-time porque “sabe-lhe bem o dinheiro na conta”. Confesou que ia usar o dinheiro do subsidio das férias para comprar um tlm que custa 600. Ele vive com os pais. E o mais engraçado é que ganha 600 no máximo pode chegar aos 650.

    Tive a fazer contas e para eu viver dignamente (sem luxo mas dava para poupar) devia de ganhar 900€. A Raquel acredita que eu tenho formação suficiente para ganhar bem mais que isso? Pois tenho! Mas sabe, não tenho qualquer ipotece nessa área. O mercado está lutado. Digo: o mercado carece mas a concentração do dinheiro e a exploração para quem trabalha na área a subcarrega-los, não deixa espaço para mais ninguém.

    Até à bem pouco tempo culpei-me por não trabalhar na área. Culpei-me pela falta de competência técnica ao nível que eu acreditava ser o minimo aceitavel. O engraçado foi ver colegas, que os considerava nesse nível, terem estagiado e só um deles (dos 20) ficou numa mega empresa. Uma licenciada, recem licenciada em lisboa a ganhar o mesmo que ganha o meu colega que trabalha num supermercado na reposição. Ela desistiu e hoje trabalha numa loja. Eu não desisti. E hoje também trabalho numa loja mas as coisas mudam, à se mudam! Estou a fazer o que a Raquel diz (e muito bem, no que falta…) e o que falta é envolvermo-nos…

    Faço parte de um grupo internacional que luta pelos direitos humanos. E vou usar os meus conhecimentos para chegar a cada um dos jovens da minha cidade.

    Raquel você escreve tanta coisa que me toca dentro do coração. Eu estou no terreno e sinto tudo o que você escreve. É muito bom saber que existem tão bons profissionais em Portugal. Você é uma grande mestre. As pessoas que não estudam gozam desvalorizando a formação. Ora veja, não foi preciso você passar por tudo isto para chegar a estas conclusões. Você estudou a história, teve com pessoas que revelaram pedassos dela… É magnifico o conhecimento teórico. Ele ajudam-nos a entender o mundo, ás vezes prever situações e sobre tudo nos ajuda a proteger-nos. Digo-lhe, comecei a ler em 2010 já estive bem perto da loucura isolado e acredite ou não foi nos livros que fui encontrando paz. Descobri muitos autores (novos poderes) e muitos titulos que me ajudaram a não ser vitima da história e lutar democraticamente por ter direito a um trabalho digno. O trabalho que está a fazer com os estivadores e os alertas e repetidos alertas que se preocupa a dar e a repeti-los são muito importantes. Repita-os de formas diferentes mas não os deixe de repetir. Na minha empresa já noto algumas preocupações com as horas extras que são um abuso. Usam a lei e o famoso banco de horas, fazem muita pressam para fazermos horas extras senão somos considerados maus funcionários, sente-se mesmo desprezo no ar e há indiretas em relação ao contrato.

    Raquel, mas eu leio livros… Não funciona comigo. Eles que contratem mais pessoal! Fico todos os dias no minimo mais 20 minutos e para mim chega é muito desgastante.

    Raquel você acredita que na primeira semana de uma função que se tem de decorar o sitio das coisas (mais de 900 coisas diferentes) levei muitos gritos, ofensas, etc por não saber? É ridiculo não é? Comigo só gritam uma vez, a primeira e a ultima. Aprendi a gerar conflitos sem ser rude nem mal educado. Eles não sabem mas são uns gravadores que repetem o mesmo comportamento dos chefes deles. Para subir numa empresa você tem de ser gravador (e robot), correr (mesmo que demostre que você não tem o trab controlado e que o seu chefe é uma besta por não contratar outros colaboradores) e dizer mal dos outros. Sério raquel. Você ganha duplamente. Por fazer o trabalho e por dizer mal. Então há pessoas mais novas que eu que entraram lá aos 20 e lá continuam que você olha pa elas e sente a pressão que têm nos ombros. Só pensam em consumo, status e pouco mais. Resumindo o que uma colega da casa dos 35 anos (solteira) e que trb lá à decadas disse quando eu lhe perguntei o que ia fazer nas suas férias ela respondeu “vou aproveitar para esticar os ossos”. Nem passou duas semanas das férias dela já a vi lá para saber como está o trab. Ela não tem vida raquel, será que ela não vê isso? Alguém que lhe dê duas bufetadas porra! Passar a vida toda com pressão só para ter direito a respirar por um canudo?

    Prefiro ser o anti-social que não fala muito mas que lê, que se envolve e que pensa em viajar e conhecer novos povos.

    Pedia que apagasse todas as minhas mensagens aqui no blogue. Obrigada.

  2. “Acho que os nossos jovens – falamos de médias, claro – são seres muito incompletos”

    – E os menos jovens parecem-lhe mais completos?

    “Não o fazem porque alguém paga o resto da conta – acreditam que a Segurança Social é o Estado, quando é na verdade a poupança dos pais…”

    As sociedade são sítios complexos onde tudo se interliga, o trabalho com direitos funciona como um rendimento garantido que todos deveriam ter acesso, esta exclusão é em si um acto de hostilidade dificilmente disfarçável qualquer que seja o argumento moral utilizado.

    “Em sociedades agrárias era impossível estes desrespeito pelo trabalho alheio..”

    – Sociedades estas que pelo que julgo saber são menos dadas a processos revolucionários.

    “…esperavam porquê? O que fizeram eles para isso? É adquirido.”

    – Esperavam o óbvio…esperavam ser confrontados com uma sociedade civilizada capaz de suprir as necessidades de todos. Ninguém é o resultado exclusivo daquilo que faz da mesma forma que ninguém nasce com uma divida.

    “Não acredito em mudanças sem crises. Não acredito em mudanças sem que as pessoas sejam confrontadas com os limites.”

    – Não acredita em mudanças sem vitimas, portanto…a vida de alguns dos mais expostos será reclamada a bem de um pretenso avanço que nos trará a luz da humanidade…parece-me estranho tudo isto. Lamento, ainda assim, as suas baixas expectativas nas pessoas e as suas tão próximas fronteiras no que diz respeito à capacidade das pessoas se superarem.

    A Raquel estará sempre do lado dos vencedores, não dos convencionais mas ainda assim dos vencedores…

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s