Maria Ganança

Quero contar-vos a história da Maria Ganança, mas ela é maior do que as palavras que aprendi. Aos 10 anos deixou a escola porque era tempo de trabalhar, mas ela já trabalhava, em casa, na agricultura e a bordar, noites a fio. Aos 17 anos a mãe morreu e ela ficou com 5 irmãos para tomar conta. Tinha 28 anos quando veio o 25 de Abril, mas ela já era gente antes disso, quando na luta das águas esteve durante um mês a ocupar com o resto da aldeia uma saída de levada, ainda durante a ditadura, que iria tirar a água à população. Morreu então uma jovem de 17 anos. Venceram. Parámos junto à estátua em sua homenagem. O que ia derrubá-la nesta vida? Nada. O que nos pode derrubar depois de perdermos uma mãe e ficarmos com 5 irmãos na mão? Quando veio o 25 de Abril foi de porta a porta a cada uma das bordadeiras convencê-las, junto com outras mulheres, como a Guida Vieira, um outro exemplo maior, a formar o sindicato das bordadeiras da Madeira. Dia e noite a bordar. Têm noção do que é construir um sindicato de bordadeiras, 2 mil mulheres (número que devemos ainda confirmar) dispersas por aldeias dominadas na sua maioria por uma igreja conservadora que sob a égide do bispo Santana teve uma organização de extrema-direita que colocou bombas na Madeira naqueles anos? «Como fizeram o sindicato assim, se as pessoas trabalhavam em casa?», perguntamos? «Íamos casa a casa, diziam que éramos como as testemunhas de Jeová!» (conta isto e dá uma sonora gargalhada, de sorriso cheio). Esteve na ocupação do engenho, no tempo em que os agricultores iam vender a cana e não tinham direito sequer direito a ver o peso do que tinham vendido. Luta que fez subir o valor da cana vendida pelos lavradores para mais do dobro. Esteve contra o regime de colonia, que fez da Madeira uma das últimas regiões feudais do mundo, onde na década de 70 ainda se dava o quinhão a um Sr feudal, absentista. Foi muito mais coisas que eu e aLuisa Barbosa contaremos em breve na História do 25 de Abril na Madeira, financiada pela Câmara Municipal do Funchal, quando juntarmos estas peças de autonomia, falo claro da autodeterminação de cada um, do direito a dispor da sua própria vida. Tem 70 anos. Decente, corajosa, coerente. Todos me dizem na Madeira que é uma das bordadeiras mais perfeitas. Trouxe um bordado seu, uma peça de arte maior, que leva dias seguidos a fazer e exige uma perícia de mãos e olhos máximos e anos de aprendizagem cuidada – está na minha sala, num lugar de honra.

fotografia (3)

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