Meios e Fins

Um grande debate atravessou a esquerda europeia e não só, os intelectuais sobretudo depois de 45, o marxismo e mesmo a social democracia no século XX – todos os meios são legítimos se o fim é legítimo? A polémica perdura hoje, mesmo se a maioria não se apercebe. Não está resolvida, no micro e no macro. Um trabalhador pode roubar numa fábrica onde é maltrato? Eu acho que não. Um jovem desempregado pode pedir dinheiro aos pais para evitar um trabalho de 400 euros que o vai desagastar? Eu acho que não. Acho que ele deve aceitar o trabalho e organizar-se no trabalho, se necessário clandestinamente, para conseguir aumento de salários – não acho legitimo que sejam os pais reformados a pagar esse preço. Como vêem não é tão fácil como parece, esta questão de meios e fins. Não temos nenhuma unanimidade neste ponto. Sobre o terrorismo, no passado foi mais polémico do que é hoje, porque hoje as acções de terror têm uma dimensão reaccionária, sob qualquer ponto de vista, mas e quando não eram? Quando não eram escreveram-se milhares de páginas sobre o tema, centenas de organizações politicas nos passado dividiram-se por causa disso também. Todas as ideologias são projectos de futuro a partir de necessidades materiais objectivas, não vivemos sem ideologias, quem não tem uma vive a dos outros que naturalmente lhe é dada como a «realidade» e não como um projecto ideológico, como todos são. Há um grupo de países colonizados cujas matérias-primas e vida civilizada foram destruídas pelas guerras levadas a cabo pelos Governos dos EUA e da Europa. A resistência a essas guerras é feita por escassos grupos laicos, outros influenciados pelo marxismo como o PKK do Curdistão, mas a maioria da resistência é dirigida por fascistas – raramente uso a palavra – islâmicos, monarquias despóticas medievais que usam a solidão, o desemprego, o racismo europeu, a desagregação de vidas construídas no isolamento territorial nas próprias cidades europeias. E o dinheiro da Arábia Saudita, aliada dos Governos ocidentais. Mas mesmo na mais injusta e desigual das guerras há uma indissociabilidade entre meios e fins. Toda a injustiça e terror que cai do ocidente, sobre civis, em massa, com drones, e que mata com muitos zeros à direita não autoriza, legitima ou explica a morte de um único inocente civil. Esta é uma pedra fundadora das ideologias civilizadas – meios e fins estão ligados, sempre. Estou convencida com sinceridade que quem tem mais poder tem mais responsabilidade nesta guerra, que há culpados e vítimas. Mas como em todo o campo desigual à vítima não é permitido tudo. O terrorismo é injustificável, seja qual for a desproporção de meios em guerra. Não há pobreza, desespero ou maus tratos que justifique a lei do terror. Que isso não nos leve porém a apoiar a deriva do terrorismo de Estado dos nossos Governos democraticamente eleitos. Porque pela mesma ordem de razão não é por serem democráticos que tudo lhes é permitido. O pior que podemos fazer a esta guerra em curso é transformá-la numa guerra de civilizações – ela é uma guerra de disputa de recursos. Só pode ser resolvida com o retorno ao velho princípio da autodeterminação, do direito dos povos do mundo disporem de si próprios.

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4 thoughts on “Meios e Fins

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  2. Pingback: O problema dos meios e dos fins na política (as éticas ontológica e a teleológica) | perspectivas

  3. “Toda a injustiça e terror que cai do ocidente, sobre civis, em massa, com drones, e que mata com muitos zeros à direita não autoriza, legitima ou explica a morte de um único inocente civil.”
    É para rir? Diga-me que é ironia…

  4. Reconheço brilhantismo na capacidade de identificar temas relevantes e assuntos essenciais

    Os seus dois exemplos de divergência tem uma coisa em comum é a insensibilidade para com os que estão na posição desfavorável. Está implícito na sua abordagem que as pessoas são responsáveis pela sua condição ou por outras palavras são responsáveis pela sua própria incapacidade de sair da situação em que se encontram.

    Temos uma sociedade onde a sobranceria e a prepotência reinam, pessoas cheias de si próprias incapazes de ver o reflexo da sua própria miséria na vida desgraçada dos outros.

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