Está se a destruir a profissão médica e com isso a colocar se em causa o SNS

Aquilo que muitos por vezes vêem nos médicos como sobranceria ou arrogância às vezes é, muitas não, porém, é um processo de resistência ao sofrimento no local de trabalho. O burn out tem uma característica própria que o distingue por exemplo da exaustão ou esgotamento – há um alheamento, uma «alienação», falta de empatia. Os melhores trabalhos como os de Dejours e de Ursula Huws explicam que na profissão médica o seu alcance é muito maior – e entre os professores também. Se um operário não tem empatia directa com a parte de carro que monta, um médico tem muita dificuldade em olhar para um doente e ver uma mercadoria – força de trabalho a manter; ou um professor olhar para um aluno e ver uma mercadoria – força de trabalho a formar. Nos serviços públicos mercantilizados o burn out tem aumentado. Os profissionais têm, na sua maioria, brio, mesmo quando estão desmotivados, e só ao fim de muitos anos e métodos de gestão fabris nas escolas e hospitais (a começar pela falta de autonomia) é que vão desistindo e passam a fazer o trabalho sem empenho. Querem educá-los, curá-los e é uma violência quando as próprias condições de gestão não o permitem – inconscientemente resistem a esse sofrimento, de não poder fazer o trabalho bem, afastando-se emocionalmente dos objectos de trabalho – dos doentes, por quem, na aparência, não teriam sensibilidade; dos alunos, pelos quais, na aparência, não teriam preocupação. Na essência é um processo violento que leva ao esgotamento e depressão – sobretudo nos que não resistem, porque a revolta, na psicanálise e na história é parte fundamental da «cura», embora não suficiente. Mais uma nota naquilo que temos vindo a insistir – o declínio – destruição de produção – médicos doentes, pessoas mais mal curadas; em vez de aumento da produção. Racionamento em vez de racionalização, também.

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2 thoughts on “Está se a destruir a profissão médica e com isso a colocar se em causa o SNS

  1. Enquanto foram as “franjas” do país a viver em “burn out” poucos se importaram agora quando profissões tidas como particularmente nobres estão também em risco somos alertados para a necessidade de estarmos todos unidos pela mesma causa. Poucos acreditam em sociedades de pessoas iguais mesmo aqueles que reiteram a necessidade de uma sociedade democrática e livre assumem por vezes apoios tácitos à lógica da desigualdade. Já várias vezes falou da necessidade de um “reset” ao país e penso que é mesmo isso que é necessário, é preciso um ponto de partida comum para uma construção que se quer sólida.

  2. Mas, enquanto se lançam os grupos profissionais uns contra os outros – os doentes contra os médicos, os alunos/pais contra os professores e por aí fora – muito boa gente da “privada” está a ganhar muito dinheiro. E quando falo da “privada” não falo de “colaboradores” , como se diz agora, mas de patrões! Esses sim, estão a meter muito dinheiro ao bolso!

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