Cándido Carnero

Muitos de vós conhecem o Cândido Carnero e não o sabem. Ele foi interpretado num filme que nos marcou a muitos de nós, pelo actor Javier Bardem, Los Lunes al Sol. A mim mudou a vida porque lembro- me bem da decisão que tomei olhando para ele há 7 anos atrás – quero fazer a história dos que resistem, dos que não sucumbem, mesmo que sejam a minoria. Dos de baixo mas dos que resistem. Não me interessam as vítimas nem os algozes, interessam-me os resistentes. Eu e o Cândido tornamo-nos amigos então e ontem chorei de emoção a apresentar A História do Povo na Revolução Portuguesa com ele na assistência . E onde estávamos nós? Na doca – mesmo – da Naval Xixon, o estaleiro naval da resistência à deslocalização para a Ásia. É dentro do estaleiro que se realiza A Semana Negra, festival literário fundado por Paço Inacio II e Vazquez Montalban há duas décadas. Cândido era operário naval e tinha, contra ventos e marés, evitado o despedimento e encerramento do estaleiro desde 1982, conhecido-o em 2009, mantendo os postos de trabalho e a produção naval. Rompeu com o Partido Comunista Espanhol no final da década de 70, e fundou a Corrente Sindical de Esquerda, uma central sindical democrática e combativa, foi detido – várias vezes – desde os anos 80, a ultima das quais juntou milhares de pessoas em Gijon à porta da prisão exigindo a sua libertação. Porquê em democracia um dirigente sindical é perseguido ? Porque não aceitou as pré reformas e rescisões voluntárias, porque dirigia um sindicato que funcionava em plenário, porque queimou pneus, cortou estradas e usou, como todos os operários navais, uma fisga com pedras para atirar à polícia quando vinham tentar reprimir as greves para encerrar os estaleiros. “Não vou nem para o desemprego nem para a reforma !”. A primeira vez que foi detido há 30 anos estava o PSOE no governo e o filho tinha 15 dias, a mulher fazia redes de pescadores e estava em casa quando a polícia lhe bateu à porta. A ultima vez – agora- queriam exigir-lhe uma multa de 150 mil euros e ela disse não pagas, se vierem penhorar a casa, ” lo único que tenenos” jogo-lhe fogo; numa das greves que ele dirigiu, que ficaram registadas em músicas, filmes e fotos famosas em Espanha , ela teve um cancro – sobreviveu. Esta semana convidei-os para jantar, fiz arroz de tamboril e trouxe Quinta do Carmo de Portugal. O melhor que tenho para aos melhores, muito pouco para o que nos merecem “os imprescindíveis”.

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3 thoughts on “Cándido Carnero

  1. As “opções” das pessoas não são individuais já o sofrimento que resulta dos trajectos é pessoal e do individuo tal como a felicidade.

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