Não deturparás!

Uma das coisas mais graves que acontece disseminada é a deturpação das nossas palavras. Durante anos perdoei porque achei – e achava mesmo – que o problema era de ignorância. Hoje, ao final de uma década de escritos e intervenções com pessoas maravilhosas e outras menos, tenho uma amostra suficiente para vos dizer o seguinte: não tem nada a ver com saber, um analfabeto poder ser honesto intelectualmente e um intelectual com pós-doutoramento ser uma fraude intelectual. Quem deturpa as nossas palavras actua com a intenção premeditada e sabendo o que está a fazer – o bom nome é das coisas mais valiosas deste mundo, embora muita gente esteja convencida que só tem valor o que compra e vende. O médico Luís Campos, presidente da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna, que não conheço, disse ao Expresso que «a Medicina Interna está com dificuldades em atrair internos porque é uma especialidade com uma carga assistencial pesada (e não existencial, tal como está no texto), nas urgências, nos serviços de Medicina, nos cuidados intensivos e no apoio a outros serviços, o que faz com que os internos com melhores notas (na sua maioria mulheres), optem por especialidades que lhes permitem maior qualidade de vida. Este é, de resto, um fenómeno que se passa noutros países. Além disso, é uma especialidade menos atractiva do ponto de vista financeiro, para os internos em geral (e não para as mulheres em particular) que queiram enveredar pela medicina privada.». O expresso publicou de tal entrevista este título, atribuindo-o a Luís Campos: «Mulheres tomam conta da Medicina mas «só querem qualidade de vida». E dez dias depois publicou o desmentido.

O retrocesso social e a infantilização política começam a exigir-nos um preço alto – temos que começar a ser selectivos, de facto, escolher com cuidado redobrado ao lado de quem queremos andar nesta sociedade. A ideia de que todos temos os mesmos direitos sem que a direitos correspondam deveres – deveres de acção, deveres de seriedade intelectual – é perigosa. Trata-se da ditadura dos medíocres. Além dos que se encantam com a forma e só discutem a forma – se um politico é mais ou menos afectuoso, mais ou menos bruto merece votos diferentes?! -; há os que só discutem pessoas, incapazes de argumentos políticos o seu campo de defesa é a ofensa; há os que fazem e os que falam, os «digo logo existo» mesmo que nada façam por existir; e há ainda estes, os que inventam, mentem portanto. Não matarás, não mentirás, não deturparás – são 3 mandamentos essenciais para um convívio mínimo em sociedade. Não conheço Luís Campos, reitero, não faço ideia de que partido, região ou clube é, mas presto-lhe a minha solidariedade. A mediocridade intelectual não pode passar – nem com a nossa acção nem com o nosso silêncio, cúmplice. Quando vemos alguém ser atacado na rua pondo em causa a sua dignidade física devemos defendê-lo com a mesma energia com que rejeitamos métodos espúrios de debate público, que põem em causa a dignidade moral do visado.

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3 thoughts on “Não deturparás!

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  2. Abram vagas noutras especialidades! Não é melhor do que “obrigar” os jovens médicos a sair de Portugal e ser especialistas noutros países?! Qualquer dia não temos oftalmologistas, ortopedistas, oncologistas, pediatras em Portugal! E há muitos países que precisam deles e lhes pagam bem….E os cirurgiões? Será que alguém que precisa de uma intervenção cirúrgica no SNS vai ser atendido por um médico de Medicina Interna? Se eu entrar em Santa Maria com uma apendicite, é o médico de Medicina Interna que me vai operar ou é um cirurgião geral? Não chega ter médicos que façam a primeira avaliação da patologia. É preciso ter, logo ali, alguém que resolva o problema e que salve a minha vida!Abram vagas para Cirurgia neste país! O que se está a passar é uma vergonha! A grande maioria dos cirurgiões saiu para o privado e há grandes listas de espera para cirurgias. Mas há jovens médicos que querem seguir essa especialidade e não conseguem entrar porque, simplesmente, não abrem vagas!

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