Seu maricas

Tenho amigos homossexuais, se ampliar para conhecidos, vários. A todas as pressões do mundo que nos condicionam quando decidimos amar e partilhar a vida – lugar, profissão, classe social, origem familiar, finanças, desigualdade – tiveram que lidar, a mais, vi-o de perto, com o medo dos outros. Os outros desconfiam do novo, do diferente, do desconhecido. Há terrorismo ou crime de ódio num massacre desta dimensão, talvez sim, não sei, há antes disso, tenho a certeza, um profundo sinal de doença mental – quando somos saudáveis o desconhecido desperta-nos curiosidade, quando somos doentes o desconhecido atiça-nos o medo. Quando somos fortes andamos ao lado dos outros, mesmo que em duas linhas paralelas, quando morremos de medo recorremos à purga e à violência, à calúnia, ao despeito. Antes de um qualquer livro religioso, destes que dormem na cabeceira dos Bin Ladens e Trumps deste mundo, e vão dando gasolina para a indústria de guerra mundial, conduzida pelos nossos Estados tolerantes e laicos, e temperam o declínio capitalista com lutas entre religiões, géneros, clubes de futebol e países, eles, os medrosos, têm uma arma – são homens armados contra pessoas desarmadas. O seu derradeiro acto de coragem, assim pensam os seus pares fanáticos – matar pessoas desarmadas, indefesas -, é a mais cabal prova da sua incorrigível cobardia. Na moral da guerra do século XIX, mesmo entre burgueses e generais, todos iam para a guerra, ninguém ficava só a dar ordens, em primeiro lugar, e em segundo era um contra um, usando, impunha-se, a mesma arma. A industrialização do armamento e da guerra no século XX, o massacre sobre civis, procura legitimar uma nova moral em que o massacre de pessoas indefesas passa, em certos grupos, como um acto de coragem. Como numa escola dez a bater num não é hoje estranho, tabu, que devia ser. Não aceito viver numa sociedade que persegue pessoas por terem escolhido viver e amar seja quem for que o escolheu também. Mas acho também espantoso ver que estes crimes de ódio, de medo, são sempre conduzidos não num duelo de armas iguais, com hora e preparação, a la XIX, com aviso, são sempre perpetrados de surpresa por quem tem armas contra pessoas desarmadas, por grupos organizados contra pessoas sozinhas. Ao ódio juntou-se esta nova característica social – são os medricas. De certa forma podemos afirmar que hoje quando dizemos a alguém “não sejas maricas” estamos a dizer “não sejas um cobarde com medo de tudo e que não enfrentas nada do teu tamanho”.

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2 thoughts on “Seu maricas

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  2. «Não aceito viver numa sociedade que persegue pessoas por terem escolhido viver e amar seja quem for que o escolheu também.»

    Raquel, eu acho que ninguém escolhe ser hetero ou homossexual . Eu não escolhi ser hetero, ou melhor: em que idade é que isso se escolhe? Não se escolhe…

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