Os filhos dos estivadores, e os meus filhos

Há uns meses liguei para algumas empresas que conheço a perguntar se teriam lugar para um serralheiro mecânico, com 40 anos. No caso um ex dirigente sindical, despedido ao abrigo de um despedimento colectivo, o qual encarou, em nome de todos, como figura pública e dirigente, sofrendo portanto as consequências de quase tudo recair sobre ele. Foi esta razão, e não o estado de desemprego, que me fez procurar com alguma insistência – proteger quem dá a cara e é queimado, em geral com o silêncio da maioria. Responderam com muita delicadeza “Dra Raquel, lamentamos, mas infelizmente a nossa política de recursos humanos não nos permite contratar pessoas com mais de 35 anos”. Mais de 35 anos? Fiquei a pensar. A explicação é fácil, mas tenebrosa. As empresas querem uma bolsa de desempregados que pressione os salários para baixo – estão à porta a pedir emprego. Mas isso não suprime as necessidades de produção, então recorrem em permanência a horas extraordinárias. Trabalha-se 50 a 80 horas por semana nas Universidades, nas fábricas, nos estaleiros, nos hospitais. Não são os estivadores que não vêem os filhos, somos todos nós. Mas quem é que aguenta trabalhar assim? Quem tem entre 30 a 40 anos. Depois ficam quebrados, com lesões, desgaste emocional, burn out. “Tomem e embrulhem” o milagre da produtividade! Ficámos a saber que os estivadores não vêem a família. Era um segredo muito bem guardado. 70% dos portugueses trabalham mais de 40 horas por semana, as crianças estão na escola 8 a 10 horas, portanto esta realidade era desconhecida da população…não vêem eles nem vêem os enfermeiros, os médicos, os da TAP, os da Carris, do Metro, os porteiros que fazem dupla jornada, todos os trabalhadores do comércio e do turismo, todos, em suma.

As mulheres dos estivadores tiveram coragem de dar a cara contra isto. Pelo direito a viver em condições dignas, que não pode ser feito, explicaram elas e bem, sem a urgente necessidade de redução do horário de trabalho sem redução salarial, para que possa haver tempo para amar, olhar os filhos a crescer, passear, rir com os amigos ou ficar simplesmente a olhar a linha do horizonte. Veio das Flores do Cais uma lição ao sindicalismo da concentração social – aceitar congelamento salarial, reduções mesmo, e compensar isso com o trabalho extraordinário tem sido uma decisão suicidária, que tem duas consequências. Nas empresas morre-se lentamente lá dentro, com horários humanamente impossíveis, e cá fora vegeta-se lentamente no desemprego, que é o garante de que o salários dos dentro se mantêm baixo.Todos contra todos. Mortos-vivos.

A sua luta -delas – é exemplar. Lembraram à sociedade portuguesa o óbvio – não queremos viver para comer e dormir, lavar, arrumar, trabalhar e no outro dia comer, dormir, lavar, arrumar e trabalhar, e no outro dia comer, dormir, lavar, arrumar, trabalhar…que dia é hoje? Domingo? Feriado? Férias? Não te chega para a farmácia, pedes um crédito e chega para o caixão. Onde estava 1 por 1500 contratam-se agora 3 por 500, olhem o despedimento colectivo que está aí da Portway! – e ainda leva um benefício fiscal por contratar 3 de uma só vez. Não te chegam os 500? Trabalha por 3.

Onde, em que momento, perderam a noção do sentido da vida gentes do meu país?

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4 thoughts on “Os filhos dos estivadores, e os meus filhos

  1. O modelo de desenvolvimento das sociedades ditas civilizadas assenta na exploração e na desumanização, a aceitação deste padrão moral diz muito sobre a incapacidade dos cidadãos em conceber e realizar algo que seja razoável. Acabem com a mentira da individualidade, tudo está intrinsecamente ligado, acabem com o narcisismo que em ultima análise só demonstra ignorância, é necessário uma abordagem intelectual e filosófica para a nossa existência, só isso nos pode conduzir a um real avanço, mais cedo ou mais tarde o hábito da continuidade será posto em causa pela necessidade da ruptura.

  2. O que eu acho é que nunca a tiveram (tal noção do sentido da vida)…

    De aceitarem ser governados por ditadores monárquicos – e após uma breve experiência de Democracia, onde demonstraram ser demasiado irresponsáveis para viver em tal – aceitaram (e aplaudiram) ser governados por ditadores fascistas, durante quase meio século (um recorde que, nem no país onde foi criado o Fascismo, foi atingido).

    De aceitarem ser governados por ditadores fascistas, de tão cansados que estavam (e só ao fim de quase década e meia) de uma guerra que não fazia sentido (e não porque queriam muito liberdade e direitos), lá aceitaram – com literalmente 200 anos de atraso relativamente ao outro lado do Atlântico – uma Democracia estável.

    E, com uma Democracia estável, onde a corrupção é de tal ordem que até os média de massas controlados são forçados a denunciá-la, o que fazem? Votam nos partidos que, repetidamente, provaram ser corruptos e liderados por pessoas sem escrúpulos.

    O que fazer perante uma amostra de povo destas?

    Na minha opinião: emigrar ou preparar-se para o pior. (Eu, pessoalmente, só não emigro porque não posso. E, quando passo pelo Aeroporto de Lisboa, bem posso ouvir quem diga mal deste país e que seja nativo do mesmo.)

    O que me faz manter a esperança na Humanidade é saber que, ao menos lá fora, sei eu que não são as pessoas tão estúpidas, panhonhas e cobardes como cá. Mas, enquanto viver eu neste país, nunca – mas mesmo nunca – irei pôr um filho neste mundo.

    Em alternativa, pode quem quiser investir o seu tempo numa tentativa de mudança cultural (/de “paradigma”) – tendo em conta e atenção que uma está também em curso, organizada pelo poder estabelecido, mas para mudar as coisas no sentido contrário. Mas isso, é para quem ainda tem paciência para este povo…

  3. Aprendemos a ser attentos e obrigados para toda a vida, sempre com o boné na mão e a dobrarmo-nos até aos joelhos, e agora é muito dificíl erguermo-nos e andar direitos. Um dia conseguiremos.

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