Poligamina no Poder

Não gostamos, a maioria de nós, de ser confrontados com o lado mais sombrio da miséria humana – isso inclui o que fazemos e o que não fazemos. A submissão geral social é a marca, sempre protegidos pela noção ampla e protectora de medo. Ora medo e cobardia são dois fenómenos muito distintos. Esta semana num jantar com um amigo com um sentido de humor e inteligência raras ele dizia que há casais que são muito felizes porque mesmo ao final de 40 anos não conhecem a pessoa com quem estão casados. O caso do Governo português actual é mais ou menos assim.
 
O Governo promete cumprir a desvalorização do factor trabalho para remunerar capitais, imposta pela Comissão Europeia. A Comissão é dominada pelo Partido Popular Europeu, o mesmo de Passos Coelho. Na Comissão, que determina o essencial da política portuguesa, há 20 conservadores e liberais para 8 social-democratas. Achavam que o PSD já não estava no governo? Depende do foco…O PS faz de sacristão da missa Banca Nossa que estás no Céu, santificado seja o vosso nome. Foi o comissário do PS francês que veio puxar as orelhas a António Costa. Ao mesmo tempo o Governo diz-se de esquerda – desde que cumpra o que Bruxelas, do PSD, diz. Entretanto o PS vai aplicando o seu programa neoliberal dizendo que a culpa é de Bruxelas e que não gosta dos «doces» puxões de orelhas dos seus compatriotas socialistas europeus. Costa sorri porque não sentiu o puxão, sente um abraço fraterno da Europa – e tem razão, creio. Mas Costa é apoiado pelo PCP e pelo BE no Parlamento, entre outras razões porque com um bloco central oficial a explosão social – e a decadência, ambos, seriam mais acelerados – e o PS tem um instinto de conservação de Estado. E uma base de esquerda dentro do PS, social-democrata tradicional, sobretudo fora de Lisboa e fora do aparelho partidário-parlamentar que pressiona para, como se diz no filme, «façam qualquer coisa de esquerda». PCP e BE dizem que com o apoio parlamentar evitam que o PS tenha um programa neoliberal. Vão pagar um preço altíssimo por isso porque a vida da maioria das pessoas está a ficar mais difícil e não mais fácil. Podem ter mais votos mas vão perder base social organizada – os sindicatos estão a implodir, até as associações de reformados, antes tão dinâmicas, entraram em crise. A situação de super poligamia está a deixar todos baralhados.
 
Num dia o Governo manda a polícia furar a greve dos estivadores, estivadores que o BE e o PCP apoiam, greve que estes partidos estão a apoiar, ao mesmo tempo que apoiam o Governo que fura a greve e não decreta a ilegalidade flagrante do despedimento colectivo – confuso? O Governo e sua esquerda querem deixar de financiar os colégios mas a mobilização social do PSD e do CDS o seu parceiro de bloco central – do PP europeu, Marcelo Rebelo de Sousa – vão pressionar para um acordo de cavalheiros. Em rigor há 5 partidos com objectivos distintos e todos a Governar o país, o que significa que alguém não sabe com quem está casado.
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