Jornalismo intelectual e sério

O Diário de Notícias publica hoje uma peça assinada por Fernanda Câncio com o curioso título de “Mulheres de estivadores em luta por sugestão de Raquel Varela”.
Pensava eu que o facto de as mulheres e filhas de estivadores do porto de Lisboa, há mais de um mês em greve para defender os seus postos de trabalho e os seus salários, se organizarem num comité chamado “Há Flores no Cais” era motivo para notícia. Não é coisa que aconteça todos os dias. Fernanda Câncio contactou-me antes de elaborar a sua peça. Sou historiadora e coordenador do estudo nacional de trabalho no porto de Lisboa . Às mulheres de estivadores que me contactaram falei de experiências semelhantes, que aconteceram noutras ocasiões e noutros países: os comités de mulheres na luta dos mineiros contra o encerramento de minas pelo governo de Margaret Thatcher, na greve de Harlan County, nos EUA, em 1973, na longa luta dos estivadores de Liverpool contra o despedimento de cinco centenas de seus colegas entre 1995 e 1998. A história desses comités que envolveram as mulheres e as famílias de trabalhadores no apoio a uma luta desigual é importante. Como mulher e como historiadora, reivindico essa história e essa tradição. São histórias, como a das “Flores do Cais”, que merecem ser contadas. Um jornalismo que, em vez de falar do que afecta as vidas de uma comunidade usa essa comunidade apenas como figurante para promover o mexerico não merece o nome de jornalismo.

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4 thoughts on “Jornalismo intelectual e sério

  1. Absolutamente. Em que se converte o jornalismo? Cada vez mais distante do rigor e, sobretudo, da seriedade. Não é jornalismo, é a feira de vaidadezinhas, de bajulicezinhas, de ignoranciazinhas, de odiozinhos, de compras e vindas. Obrigado pela pedagogia que é sempre o seu primado- nas redes, nas aulas, nos livros, na tv, etc. Saúde-a forte entre!

  2. Raquel não se limite a publicar o nome do jornalista. Certamente ele deve ter um estorial de boas histórias como a sua. Procure e conte-nos um pouco quem é a figura. Conte no lugar certo no momento certo e sem perseguir ninguém. Não se deixe levar…

  3. Gostei e muito. Jornalismo sério com pessoas sérias é algo raro nos dias de hoje.
    Parabéns pela junção da família no ato de um que envolve todos.

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