Quem não fala bem até ama menos

Quem não fala bem até ama menos. Uma provocação que fiz no programa sobre o maior problema da língua portuguesa: o empobrecimento científico e mesmo afectivo das pessoas pela crescente divisão do trabalho que empobrece o domínio da língua. O nosso maior problema não é o acordo ortográfico, mas a manutenção de um ensino cujo maior problema – realmente sério e generalizado – é a crescente falta de exigência. Para rapidamente haver entrada no mercado de trabalho dos petizes, mercado de trabalho dividido em tarefas simples, muitas embrutecedoras, mesmo nas profissões qualificadas. Faz pior história, pior matemática e ama pior quem não sabe o valor das palavras porque são elas que nos transportam para a humanidade e foram elas o primeiro impulso descobridor do mundo. No vídeo tento defender esta ideia, que adoraria debater entre nós: nem o mais grave problema do ensino são os colégios privados – que não deviam ser subsidiados, quem os quer paga, não vive à conta de impostos públicos –, nem o problema da língua é o acordo ortográfico. O problema, sério, é que o ensino é de má qualidade, em toda a cadeia – do básico ao superior – porque voltou-se não para o conhecimento mas para o mercado de trabalho, e o mercado de trabalho, como todos os mercados, sujeita-se à lógica da rotatividade dos investimentos, que hoje é de um ano, vá lá 18 meses, e isso é totalmente incompatível com o conhecimento. Fazer um bom aluno ou um bom professor leva 30 anos, se apostássemos nisso iríamos saber amar melhor, mas também iríamos mais tarde recuperar em grandes profissionais e muito mais riqueza para o País tudo o que o tempo e o investimento sério neles permitiram.

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6 thoughts on “Quem não fala bem até ama menos

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  2. Que não se desvalorize a questão do acordo, trata-se de mais um aspecto que tem concorrido para a degradação da língua. Não é o único, mas é um deles. Este tipo de posições apenas ajuda ao ‘statu quo’, há que ter bom senso.

  3. Para mim, o maior problema que existe relativamente à boa prática e domínio da língua portuguesa, é a grande ausência de cultura de interesse neste país… O que fará quem procura informação e cultura de muito maior interesse (como estou certo de que não serei o único caso) ter de se virar para línguas estrangeiras, abandonando a boa prática da sua língua nativa.

    Como libertário que sou, onde me vou eu informar sobre bons princípios e práticas libertárias que têm havido, ao longo da História, para além das anarquistas? Resposta: Aos sítios na Internet estadunidenses, onde se escreve e fala em inglês.

    Se quero eu saber da história de líderes libertários e progressistas, onde me vou eu informar? Certamente não será nas bibliotecas portuguesas, na secção de reis e rainhas de Portugal.

    Se quero eu saber de boas e funcionais organizações políticas que são formadas, onde me vou eu informar? Certamente não será neste país, onde o fenómeno do (verdadeiro) activismo político (e de bases) é quase inexistente…

    Se quero eu saber do trabalho de bons jornalistas de investigação, em que língua vou eu ler tais trabalhos? Para português só mesmo alguns é que são traduzidos. E, neste país só conheço um ou dois jornalistas dignos de tal descrição.

    E, afinal de contas, que escritores clássicos de jeito é que existem neste país, que contem histórias realmente interessantes? O imensamente secante Vergílio Ferreira, que me tentaram obrigar a ler na escola? O também imposto Camilo Castelo Branco, que escrevia sobre as vicissitudes de um funcionário da imensamente progressista (ironia) monarquia portuguesa do século XIX? Ou o “grande” Almeida Garrett que, entre outras coisas, casava com miúdas de 14 anos?

    Por estas e por outras, é que há muitos anos que ando eu muito mais de volta da Internet estadunidense, havendo mesmo muito poucos sítios portugueses que despertem o meu interesse… E, por estas e por outras é que, ainda que tenha eu a mesma idade que a autora deste blogue e ainda que digam as pessoas que escrevo muito bem, ainda hoje dou erros de português, por desconhecimento da língua.

    Sobre os colégios privados, têm os pais que lá têm os seus filhos (com todo o direito e fazendo muito bem em tentar escapar ao cada vez mais estupidificante ensino estatal) de que o dinheiro que pagam nos seus impostos que seria destinada às escolas estatais seja antes enviado para as alternativas que tenham estes pais escolhido. E, se não têm as pessoas com menores rendimentos dinheiro para sequer educar os seus filhos, então a culpa é de quem lhes paga mal e de quem se sujeita a tal coisa sem lutar por melhores condições de vida – e não da classe média, que está já sobrecarregada de impostos (que na sua maioria servem apenas para roubar o produto do seu trabalho, para pagar dívidas fraudulentas a banqueiros internacionais).

  4. E, também, que história é esta de estar sempre à espera de que seja uma autoridade – neste caso, a estatal – que nos venha dizer como, ou impor o modo, de educar os nossos filhos? Não são as pessoas que têm filhos já adultas e capazes de pensar por si próprias?

    Porque razão não educam antes as pessoas os filhos em suas casas, tal como era e ainda é prática muito corrente no outro lado do Atlântico?

    Sabem como é que surgiu a primeira Democracia do mundo moderno? Não foi como uma criação de pessoas educadas num sistema de ensino estatal…

    Sabem quais são os alunos mais pretendidos pelas universidades de topo estadunidenses? Resposta: São os chamados “homeschoolers”. (Perguntem-se: Porquê?)

    Também, para quem tente desvalorizar a observação (aliás óbvia, da parte de quem pode assistir à contínua degradação) de que o ensino estatal é cada vez mais estupidificante, apelidando tal observação de mera “teoria”, deixo nas seguintes hiperligações (camufladas, sem um dos “t”) as ligações para as *provas* de que tal degradação é feita de modo *propositado* (obviamente, para formar pessoas cada mais estúpidas e fáceis de controlar – e consequentemente mais fáceis de explorar – pelos grandes interesses económicos que dominam os nossos estados ocidentais).

    h*tp://zibaldone.blogs.sapo.pt/a-pior-juventude-33241?thread=2521#t2521
    h*tp://zibaldone.blogs.sapo.pt/a-pior-juventude-33241?thread=4057#t4057

  5. Não percebo porque é que as pessoas se sentem tão completas consigo próprias, a sua provocação parece-me acertadíssima.

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