Salário abaixo do mínimo

Sobre a minha polémica afirmação de que são os trabalhadores que ganham 1500 euros a sustentar os que ganham o salário mínimo cabe-me dizer o seguinte: quem ganha o salário mínimo ganha abaixo do custo de reprodução da força de trabalho, não ganha para se alimentar, ter saúde, educação, vestir, daí que, confesso, sempre achei meio risível o debate de se aumenta 10 euros ou 15 – é como debater-se se um tipo com pneumonia ligado às máquinas está com 40,1 de febre ou 40,2 – entretanto ficamos a olhar à espera que morra. Morre o doente e com ele os políticas e dirigentes sindicais que acham que esta luta «possível» é que é o seu horizonte estratégico.

É um salário intolerável, ninguém por mais preguiçoso, calão que fosse, todos as ofensas comuns que se dizem por aí, em geral caluniosas, pode trabalhar 8 horas e receber isso – é uma taxa de extracção do trabalho chinesa. Sem os impostos que pagam o Estado Social e a Assistência Social quem ganha o salário mínimo estava morto – esta reflexão duríssima é jogada para debaixo do tapete esquecendo que é esta vantagem competitiva ricardiana que faz o país ter «investimento estrangeiro». Aliás, há duas semanas que se debate se vai haver dinheiro para colégios privados, um erro mas ainda assim algo secundário no orçamento, e a greve dos estivadores contra ganharem o salário mínimo vem em nota de rodapé… A geringonça parece-se com a anedota «agarrem-me que vou-me a eles! Então, ninguém me agarra?». O Estado que, recordo, é governado por um governo que pode inverter isto, porque tem maioria parlamentar, vai tolerando, regulando, fixando este modelo, e, para fingir que não é um subsídio às empresas chama-lhe «solidariedade social». Solidariedade é levantar alguém, não é cair com ela, isso é estupidez ou ingenuidade. O salário mínimo é um subsídio dos trabalhadores médios às empresas privadas, operacionalizado pelo Estado, que recolhe impostos dos sectores médios e depois entrega-os na forma de pagar salários às empresas privadas usando dezenas de fórmulas: benefícios fiscais, isenções para a segurança social, saúde, educação, estágios, livros subsidiados, rendas subsidiadas, RSI, electricidade, etc.Mais, substitui o direito a viver da dignidade do trabalho pela discricionária decisão estatal que coloca quem ganha estes valores a correr os corredores do Estado e da Segurança Social, das autarquias, a pedir «favores», na forma de subsídios. Indigno.

É o modelo Mário Centeno e hoje a social democracia reduz-se a isto – o socialismo destes sectores resume-se numa frase – é a solidariedade activa de uns trabalhadores com os outros trabalhadores…a pagar os «resultados positivos» das empresas privadas. Pelo caminho compreendem, e isso é um ponto fulcral, que isto destrói o Estado Social porque há cada vez menos gente a descontar – ora o Estado Social esse sim é  a verdadeira solidariedade universal, não sujeita a prova de pobreza ninguém, nem humilha, e à qual todos sem discriminação e sem mão estendida, mediada pela assistente social, têm acesso. O socialismo que eu defendo é a abundância e a liberdade, indivisíveis, de cada um segundo a sua capacidade, o trabalho tem que ser dividido por todos e a remuneração garantir não só o mínimo – que insisto, não garante – como o inalienável direito de todos a ir de férias, jantar fora, ir ao cinema, banalidades que desde de que a banca engoliu 47 mil milhões de euros se tornaram em luxos. Tudo isto resolve-se com  uma política – emprego para todos – e não com a política contrária, o emprego de uns a pagar o emprego de outros.

 

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4 thoughts on “Salário abaixo do mínimo

  1. De quem será a responsabilidade da existência da classe média? A sua polémica afirmação é de facto uma afirmação de classe. Não é possível compreender a organização da sociedade sem perceber o seu modo de produção, quantos de nós terão a noção que são apenas actores na sua própria vida? A inconsciência generalizada leva à inevitável desconsideração. Aproveito ainda para dizer que a verdadeira solidariedade não se paga com impostos.

  2. Nem mais.

    E, com pleno emprego, todos ficariam a ganhar.

    Os desempregados ganhariam dignidade e os já empregados teriam de trabalhar menos tempo. Pois, em vez de trabalharem os já empregados tanto tempo para depois dar parte do fruto do seu trabalho aos desempregados, iriam os já empregados para casa mais cedo, para dar lugar aos desempregados, que trabalhariam para receber dinheiro, em vez de ficarem em casa a receber subsídios. Os já empregados deveriam acabar por receber quase o mesmo, depois de ter de pagar menos impostos – por não haver mais necessidade de dinheiro para subsídios – e teriam, com isto, de trabalhar menos tempo. Como digo, todos ficariam a ganhar.

    Já para não falar na maior coesão social que tudo isto geraria.

    Mas, ao poder estabelecido, claro que não interessa o pleno emprego – e a consequente coesão social… Pois, quando se sentem as pessoas seguras nos seus postos de trabalho, sentem-se também à vontade para refilar. E, havendo coesão social, lá se vai a máxima do “dividir para reinar”.

    Ao poder estabelecido (leia-se: às multinacionais e seus governos-fantoche) interessa é que haja desemprego e medo das pessoas em perder o seu trabalho, para manter toda a gente com a rédea bem curta. Pois, deste modo, fica toda a gente com medo de ser um dos que recebe subsídios apenas para não morrer à fome.

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