Há Flores no Cais

Vocês fazem assim, deixam-nos a nós com 1500 euros e eles com 1000 e mais 10% de precários. Para o ano ficamos com 1400 euros, os outros com 900 euros e pré-reformam 500. Paga quem? A Segurança Social. Deixamos entrar mais precários? 40% ? É muito, só 30%  – temos que ser realistas. A situação concreta na vida concreta – a crise é vossa mas é grande, levem agora o fundo de pensões, que faliu. E o subsídio de Natal também? Ok, pagamos os livros da escola, está bem, taxas moderadoras no hospital, é só 20 euros. Despedimento colectivo com justa causa? Salários em atraso? Espera aí, cortaram-nos os 1400 euros? Querem pagar-nos 500? Então e o nosso acordo? O quê, que dizem?, diz mais alto!, há 1000 homens lá fora? 1000 desempregados? E só querem 500 euros?…Não há alternativa, a «malta tem medo», nós «bem tentámos, há anos que lutamos…».

Há Lodo no Cais? Pode ser que sim pode ser que não, no cais de Leixões, Sines, Aveiro talvez, não sei, sei que por lá há alegadamente sindicatos paralelos de empresa ilegais; há alegadamente esquemas mafiosos de pais para filhos; há alegadamente medo, alegadamente controlo interno, há de certeza mais mortos e acidentes de trabalho, tudo sem a presença  regular da ACT. Mas em Lisboa Há Flores no Cais. Os estivadores de Lisboa exigem sabem o quê? Trabalho para todos! Para todos? Mas isso não era viver acima das nossas possibilidades? Dividir o trabalho suplementar que existe – alguns já fizeram mais de 250 horas extraordinárias desde Janeiro! – pelos desempregados. E todos serem contratados sem precariedade, pela lei, com o mesmo contrato. São Rosas, Sr., São Rosas!. Um pacote doce pode trazer uma bomba lá dentro e um estivador bruto pode descarregar um camião de flores. Acima das nossas possibilidades é termos um porto público, concessionado à Mota Engil/empresa turca que faz das mercadorias que consumimos uma renda fixa apoiada na vida e na exaustão de quem as descarrega, e sonha com este mundo pequenino e rude, bruto, de gente a ganhar 500 euros, e que ou cai da grua ou morre lentamente com aquilo que 500 euros dão – casa fria, má alimentação, trabalho sem ócio, sem ver a família, sem ter tempo para ser humano. Esta semana ainda irei a um piquete de estivadores e espero que me ofereçam flores.

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One thought on “Há Flores no Cais

  1. Ainda hoje ouvi um comentador por quem até tinha alguma consideração ( J.G.Ferreira) dizer que os Estivadores não queriam era concorrência, e tinham que perceber que o futuro era isto, os patrões a imporem baixos salários, contratos precários e flexibilidade laboral, porque afinal é assim em todo lado…
    Quer dizer que agora o “normal” é nivelar todos por baixo??? Não serão os Estivadores que têm razão quando dizem que se os patrões podem pagar um salário decente e a TODOS, os que lá estão e os que querem entrar e são lá necessários o devem fazer??
    Porque não dizem ás pessoas que o porto de Lisboa só está parado porque os patrões querem que esteja, dão-se ao luxo de escalarem um único trabalhador da PORLIS só para pararem tudo???
    Devo dizer aos meus filhos que vão ser escravos das empresas, porque a concorrência assim o determina, e para quê? para aumentarem os seus lucros e esconderem tudo numa offshore qualquer?
    Brevemente virá uma revisão constitucional qualquer para limitar ou acabar com o direito á greve, aguardemos…

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