Mudar nos sindicatos

O argumento é perigoso – «os sindicalistas são velhos, não representam os jovens». Ora os jovens não sabem organizar nada e tomaram o cogumelo mágico do umbiguismo, com excepções. Nem podia ser diferente dado o contexto de dependência do salário família e ausência de conflitos políticos que (não) viveram. Os sindicatos têm que dar uma volta de 180 graus, mas o problema não são os velhos que sabem, são os únicos que sabem, e que podem ensinar, mas as estruturas estão blindadas, fazendo dos velhos às vezes porteiros de bloqueio pela própria máquina sindical e não, nem sempre, porque se tratam de «vendidos» ou «traidores» – se a questão fosse só moral era mais fácil – é material, para os jovens e para os velhos. Nos sindicatos estão alguns dos melhores sindicalistas do país, que sabem e querem organizar trabalhadores, são corajosos, e são responsáveis, mas as estruturas são burocráticas, os estatutos estão blindados, o desemprego pressiona para que se eternizem nos lugares, os tacticismos ficam por isso sem limites morais, o que está a levar à des-sindicalização e insolvência de grandes sindicatos.

Os sindicatos podem ser ajudados pelos partidos e o direito a ter partido é elementar mas as decisões sindicais não podem ser tomadas nas direcções dos partidos, em contra corrente aos sindicalizados, que muitos vezes são escutados quando o facto está consumado. Porque neste contexto os sindicatos funcionam como cofre que sustenta o próprio partido e a sua estratégia, que no caso português é sempre eleitoral, legislativa e nunca mobilizadora ou conflitiva. É um erro que está a cobrar um preço enorme em sucessivas derrotas e na tristeza dos associados com o seu sindicato.

Não se pode deitar fora o bebé com a água do banho, sem organizações de trabalhadores estes serão ainda mais esmagados, mas o sindicalismo tem que ir para o divã e pensar em tudo o que de errado fez nos últimos 40 anos, e mudar: mudar a ideia de que um sindicato organiza acções jurídicas individuais em vez de lutas colectivas; mudar a ideia de que nada se pode fazer «porque a lei não deixa» quando a lei foi feita justamente para bloquear a força dos trabalhadores – ver por exemplo como os serviços mínimos têm posto em causa o direito constitucional à greve; defender precários, desempregados, reformados; o sindical tem que ser uma casa onde há espaço para lutar pelo salário mas também pelo direito a ter tempo para viver; mudar a ideia de defender a contratação colectiva que em si já contém inúmeras formas de desigualdade laboral – os contratos colectivos de trabalho têm que defender todos os trabalhadores da mesma forma e não podem aceitar 6 ou 7 tipos de salários e direitos diferentes para trabalho igual; a greve tem que ser pensada, discutida em plenário, preparar-se fundos de greve para quem tem mais filhos ou pais a seu encargo. Que os mais novos que quase nada sabem de organização e foram picados pela mosca do individualismo e da dependência familiar aprendam com os mais velhos como organizar os locais de trabalho; que os mais velhos compreendam que ou mudam e aceitam mudanças ou muitos destes sindicatos vão desaparecer por não darem resposta à realidade.

Deixo-vos um excerto bonito em defesa da divisão do trabalho por todos, do menos lido, menos compreendido, mais ignorado e mais importante estudo sobre o trabalho jamais realizado. E uma reflexão que fiz sobre o sindicalismo no Ùltimo Apaga a Luz.

«Dadas a intensidade e a força produtiva do trabalho, a parte da jornada social de trabalho necessária para a produção material será tanto mais curta e, portanto, tanto mais longa a parte do tempo conquistado para a livre actividade espiritual e social dos indivíduos, quanto mais equitativamente for distribuído o trabalho entre todos os membros capacitados da sociedade, e quanto menos uma camada social eximir-se da necessidade natural do trabalho, lançando-se sobre outra camada. O limite absoluto para a redução da jornada de trabalho é, nesse sentido, a generalização do trabalho» Karl Marx, O Capital, Livro I, São Paulo, Boitempo, 2013, p. 597.

A todos, e porque devemos honrar o melhor que com tanta dor e coragem e dedicação nos deixaram no passado, um feliz 1º de Maio!

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2 thoughts on “Mudar nos sindicatos

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  2. Raquel, olhe para os mais velhos, mesmo os que se envolveram directamente na queda do regime, muitos destes têm hoje uma visão estática e retrógrada do que é uma sociedade civilizada. Apesar dos velhos já não acreditarem na sua própria importância penso que são fundamentais num qualquer processo de alteração da sociedade. Há um cem número de dicotomias que apenas confundem e dividem, somos sempre a parte de um todo, o que nos aproxima é a nossa diferença e não a aparente semelhança.

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