Mãe

A maternidade pode ser o maior desencadeador do narcisismo e do altruísmo. A quantidade de coisas que fazemos por eles que no fundo são por nós e fazem mal a eles tem-me impressionado ao longo dos anos – talvez nada espelhe tão bem a decadência mundial como o número de crianças obesas fechadas a jogar computador, amadas incondionalmente pelos pais, que acham que eles precisam mais de estar com eles ao final do dia do que a brincar com os amigos na rua. Há também as que brincam sim, mas brincam com os pais – o mundo delas resume-se à escola e aos pais.

O perigo de fazer da maternidade um estado permanente de adoração deles por nós é enorme. Ser mãe tornou-me uma pessoa muito melhor: mais disciplinada, o tempo para mim tem um valor muito superior a um diamante desde que sou mãe, não tolero que me tirem tempo, parece-me roubo; mais altruísta – descobri que há sempre na paixão o perigo de em vez de amarmos amarmos ser amados; ser mãe fez-me querer ainda mais construir um mundo melhor; fez-me perceber a necessidade e a força esmagadora dos colectivos – tenho que mudar o mundo antes que o mundo, cedo ou tarde, os mude a eles, aos meus filhos; ser mãe vai testando os meus piores defeitos, os meus maiores erros; tornou-me muito mais exigente, na vida, nos afectos, no trabalho, na política do mundo; porque sou mãe e para ser uma boa mãe tive que passar a fazer tudo melhor porque corria o risco de se assim não fosse só ser mãe. E uma mãe que só é mãe, não faz o trabalho com brio, não luta por um mundo melhor, não organiza a vida social e cultural, não dedica tempo a amar e ser amada, será uma péssima mãe. A pior coisa que podemos fazer aos nossos filhos é desistir das relações dificéis à nossa volta, das desilusões, dos conflitos, dos problemas e apostar todas as energias nas relações com eles porque com eles o amor é incondicional, garantido.

O narcisismo talvez seja a doença do fim do capitalismo, do século XXI, como a histeria foi porventura a doença da pujante industrialização do XIX e do começo do fim do papel da mulher centrado no lar, com a urbanização e a entrada desta no mercado de trabalho. Ser mãe é ser a melhor política, a melhor amante, a melhor trabalhadora, a mais irredutível das mulheres que não desapareceram nos filhos, nesse amor sem tamanho, que lhes exigimos a cada hora, sem limites, e por isso, só por isso, porque os deixamos respirar, porque não os sufocamos – e bem sabemos como é fácil tornar um filho psicologicamente dependente de nós!,a quem sufocamos com a nossa presença porque «eles precisam» – é que somos as melhores mães do mundo. Na verdade em toda a história da humanidade as crianças nunca estiveram tanto tempo com as mães como hoje porque antes tinham direito a outros afectos, avós, tios e tias, primos, crianças do bairro. Os melhores filhos do mundo…não são nossa propriedade. A primeira obrigação que nós temos é fazer deles pessoas autónomas, independentes, fortes, corajosas, verticais. Na verdade ser mãe é garantir que um dia sem nós eles vão ter muitas saudades, saudades que não passam, porque o nosso amor é infinito, mas que mesmo assim vão ser felizes. Para lá da nossa existência conseguirmos que eles tenham outra existência, a deles próprios.

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2 thoughts on “Mãe

  1. Os filhos são só um aspecto da vida dos pais. São o resultado de um imaginário por eles construído.

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