Dos números e mitos

Dos grandes mitos nacionais. A ideia que Portugal se desindustrializou, os trabalhadores deixaram de o ser e por isso não têm força – tem desculpabilizado dirigentes políticos, sindicais, e população trabalhadora em geral por más opções. Existia em 1974 no sector industrial 1.246.000 de tipos, em 2011, 1.272.9 (mais portanto ligeiramente em 2011 do que em 1974!) e em 2015, já depois de uma sangria migratória e imobilização da capacidade produtiva 1.107.000. E escrevo sobre números brutos porque por força da tecnologia a produção de valor pelo mesmo número é muito superior…Ou seja o país está mais rico (outro grande mito, o de que somos um país pobre). Os trabalhadores não lutam, de facto, por diversas razões, mas certamente não é por falta de gente que possa lutar, nem porque Portugal não produz no sector industrial. Trata-se de um fenómeno complexo, cuja explicação remete à concertação social capital/trabalho, à transformação dos sindicatos em gabinetes jurídicos, à falta de capacidade para lidar com a precariedade, embora a rotatividade laboral tenha sido sempre a norma de acumulação capitalista desde o século XIX o que não impediu ninguém de lutar, em condições, aliás, muito mais duras; à burocratização, irmã gémea da baixa participação, há também o salário família, o assistencialismo e a lumpenização de sectores, que sectores é um grande debate, as derrotas subjectivas políticas nas últimas duas décadas. Enfim, e algo mais, muito mais por pensar sem tabus, mas procurando encontrar explicações e soluções. Mas não é nem nunca foi uma questão de número

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3 thoughts on “Dos números e mitos

  1. Julgo, salvo melhor opinião, que o valor de 2011 pode ser enganador pois, depois dos acordos comerciais que foram assinados entre 1986 e 1994 foi-se alterando bastante o número de trabalhadores do sector industrial. O número foi subindo até 1990-94 e depois começou a cair com queda mais acentuada a partir de 2005 com aq entrada em vigor dos acordos do GATT.
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  2. De facto em 2000 tínhamos 1.741.000 empregados no sector secundário… Com a entrada em vigor dos acordos do GATT, este crescimento que se vinha a sentir desde 1974 inverteu-se…A minha leitura, desde 1986…, é que o crescimento do emprego no sector terciário não veio criar valor e a economia ressente-se muito da falta de indústrias que possuía, que eram maioritariamente exportadoras, e que também promoviam muito o emprego a montante e a jusante. Devo ainda fazer notar que o emprego criado pela indústria é mais estável pois, um bom operador de máquinas leva um ano a formar e, ao fim desse tempo, se ele se adaptar não é possível dispensá-lo…no sector terciário, ao fim de 3 meses são despedidos…

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