Boçais ditadores em «democracia»

A ideia perigosa de que a câmara dos deputados brasileira é uma dinastia de jagunços, uma monarquia de negócios, e que o Estado de Direito está em perigo oculta a mais dolorosa verdade – foram todos eleitos num regime de democracia representativa num Estado de Direito.

Que funciona, o regime, como plataforma giratória entre interesses individuais de empresários e partidos políticos por eles financiados. Não é esta «democracia» que tem que ser salva – é justamente a que deve ser enterrada por uma democracia onde o poder seja efectivamente exercído e controlado pela maioria. Uma parte dos deputados que votaram em nome de Deus contra Dilma eram parte da maioria parlamentar de Dilma há um mês atrás. O PT podia ser salvo pelos trabalhadores, podia mas não queria. Nem quer. Por isso até ofereceu a uma parte destes jagunços a possibilidade de um governo de unidade nacional, e aos trabalhadores nos últimos anos e nos últimos meses deu graciosamente a contra-reforma da previdência social, a privatização de hospitais públicos, cortes de até 70% na educação, e uma lei «anti-terrorista» aprovada pelo PT há um mês que criminaliza os movimentos sociais no Brasil, os únicos movimentos que poderiam fazer qualquer democracia sem aspas e coronéis. A defesa da democracia-representativa contra o «perigo» das revoluções operárias, ou seja, contra a democracia directa nas fábricas, da auto gestão politica das cidades, levou Hitler ao poder e a II Guerra Mundial como o apocalipse que salvou o modo de produção capitalista da crise de 29. Quem quer um Brasil sem jagunços vai ter que se apoiar em algo mais do que o Estado de Direito e o Parlamento porque o que ensinaram os últimos dias é que foi lá no Parlamento que o monstro foi alimentado.

Claro que me dizem que não há comissões de trabalhadores, nem gestão democrática, nada, quase nada, ou seja, que o movimento operário, trabalhadores manuais e intectuais, informais ou não, de facto não sai às ruas para defender o PT. Também não sai para apoiar jagunços. Está parado embora em rigor histórico nada está parado, o que não avança retrocede. Existem trabalhadores mas não movimentos políticos de trabalhadores. Também não sei o que dizer sobre isto – precisamos de uma coisa que não existe, em suma. Não tenho solução para a questão mas tenho a certeza que a solução que apresentam – salvar a «democracia» e «Estado de Direito» que o PT enterrou – também não é porque para haver Direito, já devíamos ter concluído isso, é preciso outro Estado e para haver outro Estado é precisa outra democracia. Da forma mais brutal, baixa, hedionda, descobriu-se que a democracia tinha parido uma colecção de boçais ditadores jamais vista em qualquer parlamento.

O marido é mau, o amante é um monstro, há que voltar a apaixonar-se e procurar, como diz Tom Joad nas Vinhas da Ira, quando sai do acampamento Rooseveltiano do pacto social à procura de «algo», no filme de Ford: «Não sei para onde vou mãe (…) Andarei por aí no escuro. Estarei em toda a parte. Para onde quer que olhem. Onde houver uma luta para que os famintos possam comer, estarei lá. Onde houver um polícia a espancar uma pessoa, estarei lá. Estarei nos gritos das pessoas que enlouquecem. Estarei nos risos das crianças quando têm fome e as chamam para jantar. E quando as pessoas comerem aquilo que cultivam e viverem nas casas que constroem, também lá estarei.»

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