Brasil Evangélico

Cabeça fria. O dia ontem pela reacção nas redes sociais mostrou não só o terror da extrema-direita e da ignorância mas também o tamanho das ilusões na democracia liberal, no Brasil. E em Portugal. Tenho amigos torturados e presos pela ditadura militar, o Alípio Cristiano de Freitas, entre outros, um dos mais brutalizados, também tive vontade de cuspir na cara do tipo que dedicou ao coronel torturador o seu discurso, embora, acho, nunca cuspi na cara de ninguém. Mas a política não se faz de grandes emoções, a não ser a da paixão, creio eu. O ódio não é bom conselheiro. Há uns anos uma amiga mãe solteira entrou num grupo de esquerda Tertuliana onde eu ia e foi bastante criticada porque colocava a filha nos escuteiros. Insurgi-me então contra as críticas, uma vez que eu tinha dinheiro para colocar os meus filhos a fazer «surf legal, cool e ateu» e ela trabalhava num call center 8 horas por dia e queria, disse-me, «que a filha não ficasse só , porque havia muita droga no bairro de trabalhadores onde vivia, só». Disse aos meus companheiros de tertúlia que quando arranjassem um acampamento de crianças para as levar a passear ateu podiam criticar, até lá o melhor mesmo era estarem calados porque se fosse eu, na situação dela, era lá que ia colocar os meus filhos.

Ora, o que se viu ontem no Brasil foi o colapso do pacto social: mais de uma década de governo PT não resolveu o essencial da vida de milhões de pessoas em questões básicas, alimentação, transportes, educação, saúde. Uma parte dessas pessoas, grande, nunca teve outro «Estado Social» que não fosse a igreja evangélica, onde trocam roupa, cuidados das crianças, alimentação, e, sobretudo, solidariedade, «estar juntos», «sentir-se perto de», a passagem das sociedades agrárias a urbanas e o fim da família alargada deu lugar a um mundo profundamente solitário, entre o trabalho e a televisão. À sombra de uma liderança de um pastor corrupto e fascista, em cidades insustentáveis, deslocados das terras de origem e da família, sem trabalho protegido, e sem sindicatos que respondam (que nem sabem que existem), muitos entraram nas igrejas envangélicas que ideologicamente não estão – sem exageros – longe do islamismo fundamentalista ou do cristinanismo que alimenta o Tea Party nos EUA. Conheço alguns dos trabalhadores que vão a essas igrejas, são gentis, queridos, simpáticos e trabalhadores, vivem aterrorizados com o Estado paralelo do tráfico de droga, não sabem sequer o que é um sindicato, porque o sindicato não é um lugar de trocas, cantar, dançar, conversar, mas um departamento jurídico, nada mais. Vivem no trabalho precário e quando pessoalmente rio com eles brincando com as barbaridades que lá se dizem, como a «mulher veio da costela do homem porque se fosse da cabeça era melhor, do pé já era muito abaixo» (cito um pastor que assisti ao vivo, na Adventista do Sétimo Dia, no casamento de uma amiga brasileira que frequenta a igreja), riem-se comigo. Tenho a certeza que não só não me fariam mal como me protegeriam.

Mas uma coisa é uma coisa outra coisa é outra coisa. Uma coisa são as pessoas individualmente, outra é que este conjunto de trabalhadores pobres, honestos, sós, no seu conjunto é parte da base social de um projecto de retrocesso social que avançou nos escombros do falhanço do PT em prometer uma saída anti capitalista de bem estar que se resumiu a fazer amigos entre banqueiros, pagar a dívida pública, fazer dos campos produção de cana e soja para combustível em vez de alimentos, queimar o partido com corrupção e distribuir bolsa família, para acalmar os intelectuais e suas ilusões na social democracia e no pacto que acabou de ruir. Quem acha que os trabalhadores gostam de viver de subsídios é a esquerda pós-moderna, os trabalhadores gostam e têm orgulho em viver do trabalho -a esquerda que fez do assistencialismo a sua bandeira, em vez do emprego para todos, levou para o colo da extrema direita milhões de trabalhadores honestos, no Brasil, na França, na Europa, o que caracteriza a social democracia é o abandono da dignidade do trabalho pela dependência e caridades Estatais, que devia ser excepcional e tornou-se na norma – 45 milhões de pessoas no Brasil dependem do bolsa familia, em Berlim 17% da população depende do rendimento mínimo, em Portugal mais de 30% depende destas transferências sociais focalizadas, que não são o Estado Social, insisto, o Estado Social é universal, de todos para todos, estas transferências são destinadas aos trabalhadores precários, pobres e desempregados, ou seja, são uma forma não de solidariedade mas de gestão e manutenção dos baixos salários.

O número de evangélicos no Brasil duplicou, como o número de ateus, creio que em uma década ou algo assim. Mas os ateus ficaram de fora. Ou, pior, salvo excepções, que as há, ficaram a apoiar e dar cobertura a ilusões no governo PT, como a esquerda aqui insiste em dar cobertura a ilusões de que o PS vai resolver os problemas do país. A esquerda deixou também de lado também temas centrais dos mais pobres, como a família, por exemplo. Tema que ficou na mão da direita. Isso mesmo, vou repetir, a esquerda abraçou e bem a defesa da luta contra as opressões de género, a homofobia, e defendeu uma família nova, de afectos, na qual acredito, mas deixou de dar uma resposta central aos temas que atingem os mais pobres, como melhorar a família destes – eles não querem uma família diferente, mas querem certamente viver melhor, ter trabalho, tempo livre, cuidado das crianças, postos de saúde. Lembro-me quando os meus filhos nasceram da Câmara de Oeiras em Portugal ter feito um questionário sobre o que era mais importante e faltava no município e ganhou face a todos os outros temas, todos, o item «creches públicas», e lembro-me na mesma altura de ver o Bloco de Esquerda só falar em luta contra a homofobia e pensar «isto vai dar mau resultado», aliás a palavra família, que gosto tanto, quase só é proferida em Portugal pelo CDS, o partido mais à direita!. O que quero dizer é que não podemos deixar de lado os temas de direitos individuais, porque a luta pela igualdade é essencial, repito, essencial, mas se deixamos de lado respostas concretas para a vida concreta da maioria estamos a deixá-los nas mãos de uma direcção que lhes dá a resposta errada, o obscurantismo. A esquerda não pode ser marginal, tem que conhecer de perto a vida dos mais pobres e humildes, tem que oferecer alternativas concretas de solidariedade. Como no filme do Ken Loach, Jimmy Hall, a política tem que ser uma comunidade organizada de afectos que tem uma estratégia clara contra o modo de acumulação, que não se perde em falsas ilusões, mas que em simultâneo responde às necessidades reais do dia-a-dia de cada um. A luta ideológica não se faz só com indignação moral perante a barbárie, mas com construção material de alternativas. Com um acampamento de crianças para as férias e uma casa em cada bairro onde à noite se possa dançar.

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11 thoughts on “Brasil Evangélico

  1. Pingback: Brasil Evangélico | Artigos Científicos e Acadêmicos

  2. Muito bom!
    Gostei muito do seu artigo, muito mesmo e gostaria de acrescentar isto: a esquerda pós-moderna é também aquela que acha que a linguagem tem poderes mágicos e que basta modificar algumas designações (como o “cartão de cidadania” em vez de “cartão do cidadão”) como se isso mudasse alguma coisa.

  3. Observações muito pertinentes. E urgentes. No Brasil, em Portugal, em França… onde está um programa alternativo mobilizador? A esquerda demitiu-se de ser motor de transformação, ficando no papel de sais de frutos, enquanto a extrema-direita se torna, para a massa informe de humilhados e ofendidos, sedutora. Que tem a esquerda para oferecer? Em Portugal o PCP guarda ciosamente a água da banheira e deita fora o bebé e o BE põe lá dentro um boneco Neunuco. A esquerda não é esquerda: tem vergonha e falta de coragem para ser esquerda.

  4. Basta ler o Observador para perceber que a esquerda faz muito mal em abandonar as questões da família, das crianças e jovens e do bem-estar. Entrega todo esse campo de (re)construção de subjetividades aos mais fervorosos militantes da direita reacionária, cavernícola, ultramontana e marialva.

  5. Pingback: O discurso da Raquel Varela: “ou eles ou nós” é o princípio do terceiro excluído | perspectivas

  6. Vi neste texto uma tentativa de defesa moral da “esquerda”, como se a ela coubesse a responsabilidade pelo resgate social. No Brasil a corrupção está no DNA da “esquerda”. Usa o discurso da legitimidade moral para chegar ao poder, e daí, se revelar. Quem faz o ladrão não é a ocasião.

    • “No Brasil a corrupção está no DNA da “esquerda”. Usa o discurso da legitimidade moral para chegar ao poder, e daí, se revelar.” E a direita brasileira não faz o mesmo? O Michel Temer e o Eduardo Cunha não são propriamente uns santinhos.

  7. Tiro o meu chapéu a esta Raquel Varela seja ela quem for (não conheço).Um dos melhores txtos que li nestas ultimas ( e tenho lido dezenas e dezenas)
    Esta esquerda passou a ser encarregada de negócios do capital e deu nisto, por todo o mundo.
    Desacreditou-se, desacreditou os movimentos de massas( ate os combateu e combate)
    Uma lastima de pulhas por todo o mundo

  8. Um dos melhores textos que já li nestas ultimas semanas ( e tenho lido dezenas e dezenas ).
    Esta esquerda que quando chega ao poder se transforma em encarregada de negócios do Capital, desacreditou-se e desacreditou a esquerda (verdadeira, se que ela existe) e desmantelou toda a organização e capacidade de resistência dos movimentos sociais ( ate os combateu e combate).
    Malditos pulhas que estão espalhados por todo o mundo.l

  9. Nem as esquerdas, nem as direitas, nem os livres pensadores como a Raquel Varela conseguirão impedir os ricos e poderosos de atingirem e porfiarem os seus objetivos. Tarde demais, agora que a estupidificação de massas, futebóis, novelas e leituras vãs são as deliciosas drogas dos “injustiçados”. Agora que a estupidez, a ignorância e a mão estendida não são estigma nem vergonha para milhões, já nada há a fazer. Nem os ricos pagarão a crise, nem os poderosos estarão dispostos a subsidiar a preguiça de indigentes mal-agradecidos. Se o trabalho dos pobres é árduo, explorado e mal pago, eles que abram os olhos. Abram bem os olhos e vejam a novela linda que está dando na TV e depois mudem de canal para ver quem está a ganhar ao intervalo.

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