Angola, o PS e o elemento essencial

A posição do PCP sobre Angola – recusar-se a condenar um regime que prende activistas porque leram um livro – é vergonhosa. Devo dizer que se eles tivessem feito efectivamente uma conspiração para derrubar o regime, facto de que são acusados, ainda teriam mais a minha admiração. O que Angola precisa é que o regime de ditadura seja derrubado, por jovens corajosos que querem viver no seu país e não numa gigante favela que alimenta o clã dos Santos e seus parceiros, nos quais se incluem vários empreendedores portugueses… Mas quem conhece a história do PCP sabe que as alianças tácticas sempre se impuseram, de tal forma que há muito a táctica virou estratégia do Partido, que trocou a emancipação dos trabalhadores pela conservação dos lugares e financiamento dos dirigentes, que, claro, falam sempre em nome da emancipação dos trabalhadores que quanto menos se emanciparem mais os dirigentes profissionais permanecem intocados – chama-se burocratização e tem décadas, infelizmente. Agora o PS não venha defender a sua posição como decente e íntegra. É que o PS num dia recebe Isabel dos Santos com delicadeza para fazer negócios e no outro condena a ditadura que se ergue para garantir estes negócios – chama-se hipocrisia, e não é um defeito menor nesta vida. Muito menos em política. Muito menos quando se está à frente de um Governo que, recordo, tem o apoio parlamentar do PCP e do BE. Quem tem mais poder tem mais responsabilidades, e desse ponto de vista, a posição do PCP, cobarde, tem menos impacto na sobrevivência do regime angolano do que os negócios que o PS apoia entre a banca e as construtoras portuguesas e a banca angolana, que são essenciais à remuneração dos capitais desvalorizados aqui da banca privada e fazem entrar assim na Europa dinheiro angolano cuja proveniência é alegadamente – dizem que temos sempre que colocar para não ter processos – sangue, corrupção, exploração até ao limite da vida e do corpo das pessoas que lá trabalham, até as deixar sem alma – a mesma alma cheia que ainda têm os que foram encerrados num calabouço, justamente para ver se a perdem quando saírem de lá.  Angola – e Portugal – estão a precisar de ter na política homens como Amilcar Cabral, o mais brilhante, honesto, líder africano anti-colonial, autor desta frase «No movimento de libertação, como em qualquer outro empreendimento humano – e sejam quais forem os fatores materiais e sociais que condicionem a sua evolução –, o homem (a sua mentalidade, o seu comportamento) é o elemento essencial e determinante».

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