Museus do Trabalho

Se forem a um Museu do Trabalho vão descobrir que ele não fala de trabalho mas de instrumentos, quanto muito fotos e roupas de antigos trabalhadores, raramente o seu modo de vida social – quanto muito a rotina laboral – e finalmente precisarão talvez de ir ao Museu de Manchester, o mais belo museu do trabalho que visitei, para encontrarem um museu do trabalho como relação social, e como relação social conflituosa. Fui hoje visitar o Museu do Vidro da Marinha Grande e lá estava, o artesão, a fazer vidro. Os belíssimos vidros, os instrumentos, e nada sobre a mais importante revolta contra a ditadura, o 18 de Janeiro de 1934, quando os operários tomaram aí o poder, constituíram o soviete da Marinha Grande, contra Salazar, que mandou tropas esmagá-los e muitos acabaram no campo do Tarrafal, a prisão, a “morte lenta”. Nem uma imagem sobre isto. No Museu dos Lanifícios na Covilhã há máquinas, também. No meu de Portimão, antiga fábrica conserveira, também; nas minas idém; o mais completo, o do Trabalho em Setúbal, quase nada diz sobre os conflitos de Setúbal, apesar de sobre estes conflitos nestas áreas muitos historiadores terem feito sérias pesquisas. Não pensemos porém que o mal está só nos museus, que muitas vezes se mantêm com a imensa generosidade dos que estão à frente, sem verbas. Fiz a minha carreira aqui, hoje já não só mas lado a lado com muitos, contra a história académica empresarial que resumia os trabalhadores à história das empresas e nunca falava dos trabalhadores, muito menos dos seus conflitos. Foi também um trabalho, o nosso, em conflito, e é, porque a academia fica angustiada com o dissenso. Coordeno há já meia dúzia de anos aquele que creio é o único grupo de estudos dos “conflitos sociais” académico. Decidimos mesmo chamar-lhe assim, não por acaso, Grupo de História Global do Trabalho e dos Conflitos Sociais, para acentuar o objecto de estudo. Porque o trabalho está engolido na economia, desaparece nos livros de contas, é a história da empresa, quanto muito a história do trabalho como actividade – como se fazia, que instrumentos se usam – e quase nunca a história do trabalho como relação social, feita de acordos e conflitos, de medos e glórias, de atomização e de organização. Não é uma relação entre coisas pacífica mas uma relação entre pessoas, raramente feliz ou pacífica nas últimas décadas, talvez séculos. Assim terão hoje muito mais livros no mercado sobre a história da empresa x ou y, dos sectores, medicina, educação, transportes, ocupações em suma, mas dificilmente encontrarão uma história dos médicos, dos maquinistas, dos enfermeiros, dos professores, dos pilotos, dos homens e mulheres que trabalharam, numa relação que é sem qualquer dúvida a principal relação social – a de trabalho. A história empresarial ou das ocupações é, quando é assim, uma história a-histórica. Vale a pena ir ao museu do vidro, aprende-se técnicas e vê-se belas peças, mas não encontrarão lá os vidreiros, muito menos os que morreram há menos de 100 anos contra a ditadura. A responsabilidade é também dos sindicatos que desprezam a sua história, não cuidam dos arquivos, não disputam a memória no presente como forma de construir um futuro melhor. Que um empresário faça de um museu uma história limpa, sem ferrugem e sem sangue, da sua empresa, compreende-se, embora nada o legitime. Que os trabalhadores abdiquem de fazer uma história total – a da empresa e a sua própria, uma reconstrução do passado beseada em factos, fontes, teoria e análise, não tem justificação.

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s