Um Raio na Páscoa

Hoje passei por uma vala em torno de um pinheiro, na mata nacional perto do Pinhal de Leiria, e a minha mãe disse-me que ali tinha estado um pinheiro morto por um raio. Não havia nenhum vestígio aparente, pelo contrário, circundado pela vala estava um longo e saudável pinheiro. Pode uma vala de um pinheiro dizer-nos algo da Páscoa? A nossa relação com a ciência é nova na história da humanidade – um pouco como as paixões, sabemos pouco mas estamos convencidos que sabemos muito. Por exemplo, a saúde é ainda hoje uma incógnita em muitas áreas mas qualquer médico sério está convencido que é Deus. Já sabem que a diferença entre um médico e Deus é que Deus não está convencido que é médico… Não sabemos mais do funcionamento das sociedades – somos, a toda a hora, cientistas sociais, surpreendidos por grande parte dos acontecimentos, também gostávamos de ser Deuses, que sós advinham o rumo do mundo. Temos algum jeito em modelos e pouco nos detalhes. Há detalhes que dão saltos qualitativos, alterando os modelos, surpreendendo-nos pela rectaguarda. Temos, creio, pouco tempo para estudar e, sobretudo, estou muito convencida disso, pouco tempo de trabalho conjunto de fundo. Começamos mas não terminamos uma conversa até às últimas consequências que conseguimos alcançar. Apenas uma vez na vida fui colocada numa sala fechada um dia inteiro com 8 cientistas e nos pediram, de porta fechada, sem câmaras, para pensarmos um problema – o resultado final foi inesquecível. O normal é termos 20 minutos de diálogo com os colegas. Trabalhamos demasiado sozinhos e quando estamos acompanhados somos desviados para tarefas de gestão e não de reflexão.

Hoje fiz um longo passeio de Páscoa com a minha mãe, que é cientista, de genética florestal. Naturalmente aprendi muito. Coisas que ela me vai contando, do pólen das flores, da evolução da reprodução sexuada e clonada (a  primeira tem pensa-se 150 milhões de anos, a segunda talvez 4, 6 mil milhões de anos), as vantagens e desvantagens dos dois tipos de reprodução, etc.; o que é uma milha (mil passos regulares de um exército, romano), quando já íamos em 4 km de tojos, pinhas e eucaliptos e nos perguntávamos quanto teríamos andado. A mais curiosa e nova das histórias foi, porém, esta. Passámos num pinheiro que à roda tinha uma vala bem cavada – na verdade desde pequena que brinco nas matas nacionais e vi aquelas valas e nunca perguntei porquê, porque havia valas tão bem desenhadas, no meio de nada. De água não são, não são caminhos de antigos regatos. Eis a explicação: antigamente quando um raio matava uma árvore os antigos diziam que todas à volta iam morrer. Os aldeãos, dependentes do Pinhal para bagas, lenha, resina, etc., apressavam-se a fazer uma vala em torno deste e assim as árvores à volta não morriam. Sabe-se hoje que quando uma árvore é morta por um raio um fungo adormecido no solo, armillaria mellea, acorda dos esporos onde está escondido e vai comer os nutrientes das raízes, logo passa para outros pinheiros, até encontrar um pinheiro robusto e saudável e adormecer de novo, nos esporos, que podem ficar assim até 20 anos. O fungo só vive na superfície, logo uma vala que impeça o seu contacto com os restantes pinheiros impede-o de expandir-se.

A Páscoa era um ritual de cultura, cultura da terra, culto religioso vem de cultivar a terra como vem a palavra cultura, a nossa relação com a natureza, de domínio, é o princípio e o essencial, e ela é feita através do trabalho. A Páscoa era um ritual de jejum entre o fim da provisão de alimentos guardados no inverno – e comidos no Carnaval até ao exagero! (porque com o aumento das temperaturas se iam estragar, daí a festa). Havia portanto um tempo de jejum até às primeiras oferendas da primavera; é também o tempo de frenesim no campo pelas sementes etc., para preparar as colheitas do verão ( as festas que a Igreja ritualizou no santos populares, em Junho – o solsticio). A Páscoa, para religiosos ou não, tornou-se hoje principalmente um momento de descanso da produção e afectos, temos e precisamos de parar, descansar, esvaziar a cabeça, e estar próximo de quem amamos. Nem tudo o que é se vê e nem tudo o que não se sabe não é – um pinheiro saudável tem uma história, uma festa de família também. Vamos dando um sentido místico ao desconhecido, e descobrindo encantados que o que não tem explicação um dia encontra-a. Feliz Páscoa a todos vós, junto de quem amam.

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