Notícias, ou falta delas

Estive agora a ver com detalhe as notícias sobre os atentados. Não posso deixar de fazer os seguintes comentários. Não estamos bem de muita coisa, e também não estamos bem de informação.
O mais importante de facto é a genuína e massiva repulsa e solidariedade de milhares de pessoas com as vítimas. Há uma condenação social generalizada à barbárie – isso não resolve nada, sem movimentos sociais e sobretudo organizações (colectivos organizados) que ponham fim a estas políticas, nada vai mudar. Mas saber que a maioria dos seres humanos sente empatia pelo próximo e horror pela violência indiscriminada é uma semente de civilização. Quem acha que nascemos maus tem nestes momentos a implacável refutação.
As notícias não dizem nada de importante, e o que dizem desinforma quem vê. É um diálogo surdo sobre o que falhou em segurança interna quando a humanidade toda sabe que não se combatem suicidas com métodos de guerrilha urbana com nenhum dispositivo de segurança. É como colocar um polícia a vigiar cada pedaço fino de palha num palheiro. Logo a seguir chegam os comentários de que o “terrorismo é inevitável” porque são “delinquentes” ou “loucos”. Há ainda a declaração do ministro belga de que “estamos em guerra”. Ora, se estamos em guerra ela devia ter sido declarada e ter sido uma decisão democrática dos povos da Europa. Não foi, nem uma nem outra.
Há também uma parte dedicada à repetição de imagens agonizantes que, reitero, são filmadas por pessoas cujo destino imediato devia ser um divã de um bom psicanalista. Há pessoas que vão filmando pessoas sós, em sofrimento, e não lhes dão a mão – filmam. Não são câmaras do aeroporto. São telefones. Há uma senhora com uma mão estropiada e alguém contínua a filmá-la, em vez de a ajudar. Há até uma em que uma mulher polícia expulsa quem está a filmar, a polícia visivelmente irritada. As imagens informam? É um grande debate dentro do jornalismo. Se sim, só em parte, uma parte muito pequena. Mas é com isso que hoje se construíram as notícias. Com isso e com declarações de ministros que colocaram as nossas sociedades em guerra e não nos perguntaram se estávamos de acordo, creio que é porque imaginam a resposta…
Fui acolhida na Holanda na casa daquele que foi durante mais de uma década, creio, o director do maior centro de estudos de migrações na Europa. Não sei se teria acordo com ele, mas gostava de o ter ouvido. No meu Instituto, na Holanda, hoje o director de investigação é um dos grandes especialistas europeus em migrações. Tenho a certeza do quanto discordo dele – e gostava de o ter ouvido. Na Holanda, e em conferências pelo mundo inteiro, ouvi e fui aprendendo os resultados das investigações de centenas de especialistas em pobreza, religião, migrações, guerras, islamismo, sociedades do Médio Oriente ou de África, relações internacionais. Nunca, apesar das diferenças que posso ter com todos eles, ouvi alguma vez dizer que o terrorismo fosse “inevitável”. Há a pobreza, que explica muito mas não explica tudo; o fanatismo religioso – que é uma parte minoritária dos milhões que professam algum tipo de religião; há a integração (ou não) das segundas e terceiras gerações de migrantes – a maioria trabalhadores pobres, sérios, cuja vida é um inferno e jamais fariam mal seja a quem for; há a guerra do Iraque, do Afeganistão antes, há a pilhagem, a monocultura, o ouro negro, a fase de declínio do modo de produção, que acarreta consigo, como em todos os processos semelhantes, estranhos casos de barbarismo – temos um terrorismo à altura do capitalismo que temos hoje – um “salve-se quem puder”, até nos métodos de luta usados por este sector que, tudo indica, é financiado pela Arábia Saudita, que com a degradação das instituições a que temos assistido ainda ganhará o Nobel da paz…; temos um vazio das ideologias progressistas, depois do falhanço das vias reformadoras dos anos 70, e das derrotas das revoluções árabes – com a inestimável ajuda ocidental; há um negócio mundial de armamento cujo rendimento e mercado maior são os EUA e que não financiam pela calada os partidos, é às claras, chama-se lobby e está legalizado como “prática legítima”. Há o calvário da Síria que fez chegar à Europa milhares de pessoas que fogem do terrorismo, não são terroristas. Confesso que nunca me debrucei sobre o tema mas não posso encarar nenhum fenómeno histórico como natural e “inevitável”. Se é histórico é humano, tem princípio, meio e fim. Este tipo de terrorismo tem data e hora marcada – começou num tempo histórico que tem causas, e portanto explicações – jamais compreensão ou aceitação, o que inclui não o aceitar nem aceitar a sua inviabilidade.
O que é certo é que quem viu notícias hoje não ficou a saber nada, não ouviu ninguém que sabe. E a desculpa não é falta de dinheiro para enviar jornalistas. Todos enviaram dezenas de jornalistas à boca do metro entrevistar os que se tinham salvo, os que não passam por lá e os que ficaram de ir e esqueceram-se de algo e voltaram atrás. É emocionante mas não explica coisa alguma. Com esse dinheiro podiam, deviam, tinham obrigação, ter ido entrevistar quem sabe, ler e informar quem os escuta. Para que assim pudéssemos pensar, saber e mudar.

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4 thoughts on “Notícias, ou falta delas

  1. É importante termos acesso ao conhecimento estruturado mas vejo repetidas vezes pessoas na qualidade de especialistas a extrapolarem os seus conhecimentos e a terem a audácia de dar opiniões, coisa que não tem particular interesse para todos os que pretendem avaliar de forma isenta o tema em questão.
    É constrangedora a forma como o ser humano se deslumbra com o poder.

  2. Os média de massas *nunca* nos irão explicar toda a história relativa a estes atentados, pelo simples facto de que recebem ordens das mesmas pessoas que os ordenam…

    Estes média estão lá para aumentar o impacto emocional destes atentados (e, com isto, criar a aceitação social do Estado Policial que irá e está a ser construído, em consequência destes acontecimentos) e não estão lá para denunciar os seus patrões maçons e afins, que estão por trás destes ataques.

    Reparem nas datas e até nas horas dos mesmos. Há assinaturas claramente maçónicas nestes acontecimentos: h*tp://octopedia.blogspot.pt/2016/03/quem-beneficia-com-os-atentados-suicidas.html?showComment=1458764026387#c2299205219712607648

    Quem quiser saber qual é a verdadeira natureza deste “Estado Islâmico” e dos seus ataques em solo ocidental, não tem de ir mais longe do que a informação que é exposta aqui: h*tp://blackfernando.blogs.sapo.pt/quem-realmente-esta-por-tras-destes-85197

    (Peço desculpa pelos * na hiperligações – mas, se eu as colocar completas, os comentários não aparecem…)

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