Quem tem medo compra um cão

Nem o Brasil nem o mundo são para principiantes, como dizia o poeta. Também não é um país nem um mundo de brincadeira. O momento é sério. Não porque há um golpe, creio, mas porque estamos a vivenciar o fim do pacto social, lá, cá. No Brasil milhares vêm à rua contra Dilma, milhares vêm a favor, outros milhares porque não apoiam Dilma mas acham que a democracia está em causa, os metalúrgicos de São José dos Campos do ABC de São Paulo fizeram hoje greve contra Aércio e Dilma, «nem um nem outro», dizem; na Síria pararam os bombardeamentos e a população encheu as ruas contra o Estado Islâmico mas também contra o ditador Assad, querem liberdade a sério; nos EUA manifestantes barram a comitiva de Trump e a cada comício deste há uma batalha campal, com milhares, frente a frente. Isto chama-se «luta de classes», até no livrinho de história dos meus filhos do 6º ano a palavra não foi eliminada. Têm medo? E não têm medo que as coisas continuem como estão? Dão como exemplo que Lula deu bolsa família a 45 milhões de pessoas, deu menos de 50 euros a cada uma destas pessoas, não lhes proporcionou trabalho nem direitos laborais mas um subsídio vegetativo. Isso não vos assusta? A decadência humana, a falta de dignidade? Há 70 tipos que têm a riqueza equivalente a 50% da população mundial. Eu tenho medo que as coisas não mudem. Tenho terror de ver Isabel dos Santos aterrar em Portugal e ser recebida com honras de Estado e tratada como «empresária». E tenho pavor quando vejo Passos Coelho reagir a isto dizendo na TV que o «Estado não pode ter negócios com o privado». E olho para a minha janela e não vejo ninguém na rua, nem um tipo. Porque a mentira passou a ser sinónimo de estabilidade e ordem. O esbulho, a corrupção, a fome, a competição brutal, no limite a morte dos mais frágeis nas praias da Europa ou nos musseques de Angola ou nas favelas do Rio, tudo passou a ser «normal», como é normal o corte no SNS ou a reposição de subvenções aos deputados. Este caos de silêncio e apatia social perante a vertiginosa degradação da humanidade, e das relações humanas, pessoais e afectivas, é que nos deve assustar. O resto – manifestações, greves, protestos – é a reacção normal à anormalidade em que o mundo vive.

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3 thoughts on “Quem tem medo compra um cão

  1. Um cão é inestimável. Schopenhauer dizia mesmo que quem nunca teve um cão não sabe o que é ser amado. Os melhores são aqueles que salvamos, derrotados pela vida e pelos maus tratos, e que cuidamos. Muito.

  2. Racionalizar o que deve ser sentido só constrói algo de enganador. É absolutamente trágica a nossa falta de empatia.

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