Esquerda, um almoço aborrecido

A política está numa fase de policial sueco. Eu explico-me: ninguém pode ser feliz, só menos infeliz. Nos policiais suecos não se faz amor apaixonadamente, só desesperadamente; não se vai jantar, e conta-se umas parvoíces e se ri, tem-se antes uma conversa séria sobre a mais íntima neurose que há em nós; um almoço de família, cujo conteúdo gastronómico é jamais considerado – comem pão com pasta de salmão industrializada – , na Escandinávia policial termina numa revelação brutal de pedofilia, incesto ou simples apatia, aborrecimento visceral. Nos policiais suecos ninguém mata por amor ou dinheiro, como na Miss Marple. É sempre por solidão psicótica. A linha actual política – a ideologia actual, falsa consciência portanto -, de direita e que grande parte da esquerda abraça (essa sim de classe média, assustada com o povo que seria ignorante), é a dos policiais suecos (finalmente percebo o sucesso destes no mercado mundial!): “contentem-se com pouco que se mudarmos é para pior”. Ninguém veio ao mundo para ser feliz, viemos para lidar melhor com a infelicidade – há 6 meses de noite escura e 6 meses de luz, mas a luz antecede a noite escura, já a noite não antecede a luz brilhante. O perigo na Grécia era o Aurora Dourada, mas afinal foi Syrisa que aplicou as brutais medidas de austeridade; no Brasil fala-se de fascismo mas é o PT que privatiza hospitais e paga a dívida pública, e veta a auditoria à mesma; em Portugal o governo queixa-se do anterior mas já nacionalizou um banco e aumentou impostos, ainda mal tomou posse; na França a austeridade é aplicada por Hollande, junto com o Estado de emergência. Associadas a esta fase da política – da decadência do pacto social e de ausência de utopias – vem toda a psicanálise do desamparo e da angústia como condição essencial da humanidade. No fundo estaríamos todos condenados a escolher o mal menor. Prefiro o Mário Conde, criação do Leornardo Padura, apaixona-se, come com prazer, ri-se dos erros, olha o passado, uma “neblina”, entre o cinismo e o desejo, mas não desistiu do futuro. A esquerda do mal menor é um buraco negro, um almoço aborrecido.

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4 thoughts on “Esquerda, um almoço aborrecido

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  2. iiiiich Raquel, como se diz aqui por Maputo. Até eu, que sou um optimista nato, senti uma certa angústia ao ler este texto.
    Que a esquerda é um almoço aborrecido, concordo.
    Mas os Suecos não são todos assim. Pelo menos fora do contexto climático.
    Para quem vive como eu num país de sol e calor, seria inimaginável viver naquelas condições, por melhor que seja o nível de vida.
    Mas…volto a concordar. A esquerda é um almoço aborrecido.

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