A Sociedade não se resume ao Estado

O Tribunal Europeu condenou o Estado português pelas condições em que retirou os 7 filhos a uma mãe, mãe de 10 filhos, pobre. Tenho uma posição ambígua sobre o tema que tanto debate levantou esta semana. Sou obviamente contra, sem qualquer excepção, que o Estado obrigue uma mulher, pobre ou rica, a fazer laqueação de trompas, lhe oculte o lugar dos filhos, é inacreditável. E a indemnização curta para os estragos. Mas não olho para 10 crianças no século XXI enfiadas numa casa, num cenário de pobreza, com ternura alguma. É o velho «tudo se cria». Não cria não.
O pior que se pode fazer a um problema simples é complicá-lo, e o pior que se faz a um problema complexo é simplificá-lo. A questão aqui não é só a gravíssima questão do abuso do poder do Estado mas também a gravíssima questão da da pobreza, da superpopulação, da dignidade das crianças. E outra gravíssima questão, as crianças como extensão narcísica dos pais. Não se resolve a pobreza das mães retirando-lhes filhos mas ajudando-as, sobre isso penso haver consenso, mas não se resolve a pobreza das crianças dizendo às mães que não há problema algum em ter dez filhos no século XXI. Só depois da máquina a vapor e da luta pelo Estado Social – uma combinação brutal de desenvolvimento tecnológico/científico e luta política do movimento operário – é que as crianças adquiriram o estatuto de crianças. Antes disso, dessa economia-política, eram um custo, um braço para trabalhar. Adquiriram no século XXI outro estatuto, o de terem direitos. Isso é uma conquista civilizacional.
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