Se soubesses quanto custa mandar…

Uma distinta senhora – imagino que já perto dos 40 anos mas que os media tratam como «activista»- ainda aguardo o dia em que um ministro que nacionaliza bancos será tratado como «activista» dos mercados – , regressemos, perdão, uma senhora, dizia eu, será levada a julgamento porque pediu nas galerias do Parlamento a demissão de Passos Coelho. Gritou «demissão!». Parlamento da qual ela é, creio, uma espécie de…como dizer…, co-proprietária, junto com 10 milhões de cidadãos. Nunca é muito lembrar que isto é uma democracia representativa, farrusca, em mau estado, mas onde o poder é do povo, e o Parlamento mero representante desse poder.
Ana Nicolau, de sua graça. Nacionalizou um banco? Despediu milhares de pessoas? Subiu a conta de electricidade? Mandou os jovens emigrarem? Não. Gritou «demissão». Um inconseguimento. O representante não gostou. Já dizia o Salazar, se «soubesses o que custa mandar, preferias toda a vida obedecer…». Curiosamente Ana Nicolau é neta de um dos mais singulares homens deste país, Gonçalves Correia. Foi até à morte, já nos anos 60, um destemido opositor a Salazar, e um homem de uma humanidade e bondade raras. Conheço com detalhe a sua história, por razões profissionais e pessoais – ensinou o meu pai a ler Tolstói, um dos maiores escritores de sempre, e que, entre outras maravilhas, distribuiu as terras de que era proprietário pelos camponeses que nela trabalhavam. De quanta terra, de quanta terra precisa um homem?
Eu, confesso, jamais iria viver na sua comuna vegetariana, onde consta, se andava nu. Vegetarianismo para mim é tortura. Nu intimidade. Mas é difícil encontrar na história do século XX um punhado de homens tão generosos e que tenham feito tanto, tão bem e a tanta gente como este anarquista tolstoiano, que foi preso defendendo os mais pobres dos mais pobres assalariados agrícolas do Alentejo, quando em plena República não se hesitou em esmagar o movimento operário – muito antes de Salazar, apesar da historiografia positivista tentar atribuir à República uma aura de protecção social, que nunca existiu de facto. Gonçalves Correia foi fundador do jornal A Questão Social. No seu primeiro editorial escreveu «o nosso jornal é para afastar o ódio e proclamar a harmonia. Mas o nosso jornal, porque à Verdade se quer sujeitar, terá de dizer muita coisa que não agrade a certos magnates nacionais e estrangeiros».
Aqui um artigo do antropólogo João Carlos Louçã sobre o extraordinário percurso de Gonçalves Correia. Que a neta não se sinta intimidada e siga o seu caminho, para que todos possamos mandar e, assim, ninguém tenha que obedecer.

https://periodicos.ufsc.br/index.php/emdebate/article/viewFile/1980-3532.2013n9p90/27798

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