Os «desgraçadinhos»

O Tribunal Europeu condenou o Estado português pelas condições em que retirou os 7 filhos a uma mãe, mãe de 10 filhos, pobre. Tenho uma posição ambígua sobre o tema que tanto debate levantou esta semana. Sou obviamente contra, sem qualquer excepção, que o Estado obrigue uma mulher, pobre ou rica, a fazer laqueação de trompas, lhe oculte o lugar dos filhos, é inacreditável. E a indemnização curta para os estragos. Mas não olho para 10 crianças no século XXI enfiadas numa casa, num cenário de pobreza, com ternura alguma. É o velho «tudo se cria». Não cria não.

Há um estado de vitimização permanente na sociedade que elimina a noção de sujeito histórico – todos são uns «desgraçadinhos» e quanto mais «desgraçadinhos» mais está justificado tudo o que fazem, e também o que não fazem. É como se aos seres humanos pobres tivesse sido retirado o ser – eles, por serem pobres, não são sujeitos, nem responsáveis – nem dignos – por nada. Conheci muitos pobres na vida, muitos, nas aldeias dos meus avós – e a maioria organizou, com o muito pouco que tinha, o melhor para os filhos, isso implicou fazer escolhas racionais, e muita luta e muita coragem e muita força. Por isso quando me falam em CEO de sucesso, alpinistas sociais que subiram no aparelho de Esatdo, etc. tenho outras medidas de sucesso e determinação. Conheci também operários que roubam e operários que bateram no que roubou, enquanto se enfrentavam com o patrão por melhorias de condições de trabalho, para o que tinha roubado também.  A sabotagem como forma organizada de luta não é o mesmo que a destruição individual de uma máquina, porque um tipo se passou. Fazer um sindicato de call center não é o mesmo que desligar o telefone na cara dos clientes, porque se está exausto. Pedir dinheiro à família é muito mais fácil do que lutar politicamente. Desde logo lutar dá trabalho, custa, exige dedicação – a inércia, expressão da alienação, é um problema tão grave que merecia rios de tinta.

Este «estado de alma» da vitimização já contaminou as empresas e locais de trabalho. São todos iguais – os que trabalham sem parar e organizam uma greve e chegam a casa e levam os filhos a passear (como conheço muitos, com e sem qualificações superiores) , e os que trabalham mal, queixam-se e não vão aos plenários de empresa e chegam a casa e ligam a TV aos filhos (como conheço muitos, com e sem qualificações superiores). Todos iguais? Sim, na lei, no voto. Não, na vida.

Um dia destes um dos meus filhos comentou que ser paí é a profissão mais dificil do mundo, uma vez que «não só não recebem como pagam para trabalhar». A frase merece ser pensada. Em 1959 aprovou-se a Declaração dos Direitos da Criança. Mas não havia crianças antes de 1959? Não exactamente. Com excepção de algumas tribos, onde a escassez foi ultrapassada, por tempos curtos, ser criança a tempo inteiro é um direito das sociedades do século XX, só possível depois da máquina a vapor, da electricidade e da resistência social da Segunda Guerra Mundial que colocou a dignididade humana como travão à produção de lucro desmesurada. Eu explico-me: é preciso abundância de produção para dizer que há um membro da família que em vez de trabalhar pagamos para ele. E para pagarmos para ele e lhe dar o que ele precisa tem que haver luta politica que garanta direito ao emprego e salários acima da sobrevivência. Por isso numa grande parte do mundo ainda não há hoje crianças – apesar o que há é trabalho infantil, a barbárie. No ocidente e nas camadas médias no resto do mundo as crianças hoje não são braços para trabalhar, são os nossos abraços. Isto poderá terá criado um segundo problema, que não é o mais grave a nível mundial mas não deixa por isso de ser sério – é que elas transformaram-se para muitos pais e mães na sua extensão narcísica. Desmoralizados com o trabalho, desvirtuados os afectos, sem redes de sociabilidade, sobram os filhos para dar afecto e felicidade. E que afecto! É, como se sabe, incondicional. Portanto, facilmente manipulável, pelas crianças, e pelos pais. Só isso explica que uma parte importante estejam obesas, abandonadas em frente de TVs e computadores e que não possam brincar com os amigos quando têm tempo livre porque esse tempo livre – escasso – é usado para deleite de pais e mães que os querem perto de si, a olhar para si com aquele olhar de amor incondicional…Com 10 anos, e mesmo com 5, eu não trocaria as minhas horas de brincadeira com os meus primos e amigos pela minha mãe – que era quem eu mais amava então. E a minha mãe amava-me tanto a mim e ao meu irmão que nos mandava «sair de casa e só voltar para jantar!». Não eram más mães, eram mulheres sensatas que sabiam que as crianças precisam de ser crianças, entre elas, com elas e que têm direitos próprios, para além da vontade e da necessidade dos pais.

As crianças não são propriedade dos pais. São responsabilidade – palavra mágica. Responsáveis pela sua saúde, bem estar, força, independência e felicidade, também. Têm uma dignidade para além de nós.

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One thought on “Os «desgraçadinhos»

  1. O que será que a Raquel nos tem a dizer sobre a estranha necessidade que as pessoas têm de ser pais?

    Não me parece indigno aquele que não tem capacidade de se defender,

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