Estado Nosso que Estás no Céu

A Comunicação Social tem que escolher os conceitos com que trabalha: se um homem mata uma mulher é um «violento», se uma mulher mata os filhos é «deprimida». À partida se é homem é criminoso e mau, se é mulher é vítima e boa. E, claro, o «Estado chega sempre tarde», nisso estamos todos de acordo. Estamos? Eu não. Estamos cansados de viver em sociedades onde há eternos suspeitos, essa é a história do século XX. Ora, o meu conselho é o da minha avó, a quem abriram as cartas pessoais enviadas para a Suécia a um dos filhos, exilado do regime – ela era portanto suspeita: cautela e caldos de galinha nunca foram em excesso. Ninguém sabe o que se passou, até agora, nem sequer quem mais sabe sabe qualquer coisa – os médicos, a PJ, que estão a investigar o caso de perto. E sabem porque é que não sabem? Porque há coisas na vida que exigem tempo. Entre elas investigar, e entre elas mover a máquina estatal. Porquê? Porque há um valor inviolável: a protecção dos indivíduos contra o abuso do Estado. Ou querem viver em estado de emergência total? Isso leva-me a um último comentário: o Estado não actuou? Se calhar não, porque não tem meios ou porque as pessoas não sabem trabalhar bem ou porque não sei, mas se calhar sim, actuou como pode e deve, porque o Estado tem limites, processuais. Ainda bem. Já as pessoas à volta – família, amigos, vizinhos, não têm esses limites. E ainda bem. Podem dar a mão a quem precisa, sem chamar o Ministério Público. Ou podem dar um murro a quem merece, sem esperar pela Polícia. Mas isso seria uma chatice, exige coragem e responsabilidade, seria actuar em vez de passar as culpas para o próximo, de preferência um corpo jurídico e policial, o velho «ninguém tem culpas em particular e todos têm culpas em geral».

Não sei nada do caso concreto e recuso-me a comentá-lo. Tenho verdadeiro respeito por investigações cuidadas e muito desprezo por culpas por «boato» ou «suspeição». Mas sei que permanece o mito, perigoso, de que o Estado resolve e resolverá tudo. Como? Colocando um polícia à porta de cada um? Precisamos de menos responsabilidade colectiva institucional e mais responsabilidade colectiva individual. De dar mais murros e abraços na hora certa. Não se confunda a justiça «popular» sem lei, o linchamento, que não defendo, com a desresponsabilização que atingiu o conjunto da sociedade em que impera o individualismo primário, e em que infelizmente há sempre um culpado maior – o Estado – porque nós, ora nós, todo o país sabe, actuamos, dizemos, fazemos, nós somos imparáveis, um exemplo mundial de responsabilidade colectiva e luta diária por uma sociedade mais justa e digna…Passo a ironia, que o momento é demasiado grave, e chego ao fim da oração: O Estado não é Deus, nem nós somos ovelhas.

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3 thoughts on “Estado Nosso que Estás no Céu

  1. Quando soube do caso, confesso que a minha reacção foi de preocupação pelo estado mental daquela mãe e consternação pela morte das meninas. Mas a sua abordagem é muito pertinente. Não sabemos quase nada do caso, mesmo ainda hoje, e existem duas versões em confronto: a do lado da mãe e a do lado do pai. Aquelas meninas eram, com toda a certeza e sem conhecer indubitavelmente os factos da história, as inocentes e não mereciam nunca o que lhes sucedeu.

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