Pirueta Estatística

Lembro-me de uma entrevista de Fernando Ulrich em que ele explicava que era preciso pagar a dívida pública porque os «investidores ficam nervosos». Estava certo – esqueceu-se só de dizer ao público que o escutava como especialista de finanças, bancos e economia, que «os investidores» era ele próprio também.

Tenho acompanhado o debate em torno do rendimento disponível nas famílias portuguesas, de várias fontes. O primeiro dado, que não tem nada de surpreendente, é que a maioria dos portugueses ganha abaixo do mínimo necessário para condições decentes de vida. Não é novo, e é indigno. Mas não concordo que essa grande maioria seja colocada em condições menos miseráveis usurpando o salário médio, como prevê este OE – é o clássico «a culpa dos jovens não terem trabalho é dos velhos que têm direitos».Dizer que uma faixa da população tem entre 40 a 80 mil euros anualmente disponível não diz quase nada. Não li a metodologia de cálculo, limito-me a deixar questões: é bruto ou líquido? quantos são no agregado familiar directo e indirecto? os 40 ou 60 mil cuidam realmente (não só juridicamente, mas de facto) de quantas pessoas e em que condições? A quantas horas de trabalho nocturno e diurno corresponde esse rendimento? Como disse não li a metodologia de cálculo, mas ela é essencial para se perceber o que mostram os números.

Agora o mais importante: qual é a profissão? Se for um trabalhador altamente qualificado o custo de reprodução dessa força de trabalho é muito mais alto e todo o rendimento é facilmente usado em consumo – sem poupança ou acesso a qualquer bem de luxo. Não sou eu que o digo, é o INE – 97% das famílias consome todo o rendimento, ou seja-o gasta-o a reproduzir a sua força de trabalho e a sua prole – cuidar dos filhos. Finalmente, o ponto fulcral, a última varanda de rendimentos é «80 mil e mais». É aqui que Belmiro de Azevedo, Amorim, Mexia, um operário qualificado de topo, um magistrado, um professor universitário e um médico se encontram, todos à mesma mesa, para jantar fora? O que quer dizer «80 mil e mais»? Que estes rendimentos são só os do trabalho, ou estão todos misturados, os de juro, renda e lucro? Se não, fica sem efeito o sarcasmo. Se sim, coloca quem ganha 80 mil e 1 milhão no mesmo patamar. Se for, desculpem, é pura demagogia. Então a família de um médico em exclusividade no SNS ou de um portuário do porto de Lisboa seria colocada na mesma varanda de rendimentos de um CEO de topo de uma empresa? E mistura-se bens de consumo com meios de produção?

Insisto, na questão política – escolhas públicas de organização da produção. Em Portugal há 25 pessoas que têm uma fortuna equivalente a 16 mil milhões de euros, não são 16 milhões, são 16 mil milhões. O PS não quer incomodá-los porque é mais fácil penalizar os rendimentos do trabalho e porque «os investidores (eles mesmos) ficam nervosos». Mas eles merecem uma varanda estatística própria, porque é aí que se deve ir buscar a parte do salário que é retirada aos 7 ou 8 milhões de portugueses que têm rendimentos efectivamente indignos, abaixo do mínimo necessário.

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One thought on “Pirueta Estatística

  1. Tem toda a razão quanto às dúvidas que apresenta e nas considerações que tece. Não havendo clarificação, por parte de quem faz os cálculos,ficam muitas incertezas que em nada ajudam a compreender a justiça social que se deseja (se é que se deseja). E nas incertezas não queremos certamente viver.

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