A minha mota

Desde que o Governo PS está no poder, com o apoio do BE e do PCP, gerou-se um ambiente semi persecutório de um acrítico unanimismo em apoio do Governo, ocultando, por um lado, as medidas reais que foram aprovadas, noutros casos reduzindo o debate político ao velho «quem não está com o PS está com Passos Coelho». É um nível de debate que não acrescenta nada ao destino do país. Sobre este modelo de fazer política permito-me deixar algumas notas.

A primeira é que mesmo que o PCP e o BE achem que devem apoiar este Governo – e têm legitimidade e pressão eleitoral para o fazer, da sua base e do próprio PS que quer evitar a pasokização – colherão a tempestade se assumirem publicamente inverdades como «o orçamento não toca nos rendimentos do trabalho». Os rendimentos do trabalho em Portugal são regulados pelo nível de desemprego, o OE não só não cria empregos como subsidia as empresas para manter os baixos salários. A segunda é que uma medida não é boa ou má porque é tomada pelo governo que apoiamos ou outro – ela é boa ou má em si. Neste caso ela é boa se promove a elevação salarial, ela é má se promove a degradação salarial e a concentração de riqueza numa ínfima parte das famílias que detêm não 60 ou 80 mil euros mas vários milhões, ou, como existem no país, mil milhões. A terceira é que eu criticarei qualquer governo, a começar pelo meu. Reservo-me ao direito de controlar sempre os representantes – este não é o meu Governo mas se fosse não deixaria de apontar cada medida que é tomada contra os salários, a sustentabilidade do Estado Social e da Segurança Social – a unidade de pensamento, o partido único, e o pensamento único a mim não me convocam nada a não ser as mais tristes memórias do século XX. A quarta é que somos uma sociedade urbanizada, escolarizada, complexa. Quem não está com o PS pode não estar com o PSD – felizmente há vida política, e muita, fora das agendas de pressão mais tacticistas dos partidos. A quinta e não menos importante é que há uma multiplicidade de factores – pressão dos interesses que o PS representa, burocratização sindical do PCP, pressão eleitoral do BE, pressão da EU, da direita e aproxima-se a grande recessão. Todos debaterão de onde vêm as culpas, mas isso será irrelevante na contabilidade do dinheiro das famílias – a vida real das pessoas que trabalham de forma exaustiva e não conseguem pagar contas de sobrevivência é o que vai marcar de forma indelével o país. Os fenómenos de falências, endividamentos, proletarização dos sectores médios e pauperização geral. Há uma decadência nacional histórica em gestação, bem como um gigante conflito colectivo, provavelmente com carácter internacional.

A última é que às vezes me chamam aqui sonhadora. Não sei se o fazem com carinho ou não, espero que sim. É isso que sou, todos os dias sonho com outro mundo. Conto-vos uma história pessoal. Tinha 12 anos e queria ter uma mota, todos os meus amigos, sobretudo amigas, mais velhos, tinham. A minha mãe disse-me, para descartar a conversa, que quando eu trabalhasse podia comprar a mota. Eu era grande, arranjei-me e fui-me oferecer para trabalhar aos fim de semanas num centro comercial, ao qual ia ao sábado e domingo, depois de 1 hora e meia de transportes, para cada lado, vender cartões de viagem – convencendo os transeuntes a comprar uma magníficas férias dum piros resort turístico nas Bahamas. Passado 3 meses cheguei a casa com o dinheiro para a mota. A minha mãe segurou-se na parede – tinha a palavra dela. Fez comigo o acordo de que a mota ia para o Alentejo até eu ter 15 anos. E assim foi. Quando lá cheguei, à estação da Funcheira, andei sem capacete durante uma tarde inteira, sozinha, com o vento quente das searas, pelo meio dos campos, os mesmo onde o meu avô tinha enfrentado a PIDE, os mesmos onde o velho Gonçalves Correia, que parava na mercearia dele para contar ao meu pai as história de Tolstoi, tinha construído uma comuna – chamada da Luz – onde ninguém vivia do trabalho alheio. Ainda hoje quando vou em trabalho ao Algarve páro na Funcheira, saio na estação e fico ali um par de horas a cheirar o vento quente, às vezes, a bem da verdade, não mexe uma folha e o ar abafa. E lembro-me daquele dia. Talvez tenha sido nesse dia, com uma acelera em segunda mão que tomei consciência que não se pode desistir de sonhar. Que quando acreditar que o que temos é o que é possível estarei morta, na paz unida dos cemitérios, onde todos proferem o mesmo silêncio. Só aí, debaixo da terra, se pensarem bem, estamos unidos na inevitabilidade. O lugar mais triste, onde já ninguém sonha.

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