Voa, «eu queria de ti um país»

O que tem ficado por dizer é que a queda do PIB não representa qualquer preocupação para quem quer manter a remuneração dos capitais bancários porque a queda do emprego é maior que a queda do PIB e isso garante que mesmo com a queda da produção há aumento de lucro. Volto a repetir esta frase: «a queda do emprego é maior que a queda do PIB e isso garante que mesmo com a queda da produção há aumento de lucro». Enquanto não se compreender todo o significado desta equação – insisto na recomendação da leitura das primeiras secções do Volume I do Capital de Marx – não se compreende o que está em causa no orçamento de Estado. Metaforicamente o que estou – estamos, dezenas de investigadores sociais no mundo a alertar – é que é a destruição de riqueza que está a fazer aumentar as taxas de lucro. É a irracionalidade produtiva. O desemprego vai manter-se, a precariedade, os baixos salários com a agravante do complemento salarial aos baixos salários (medida mais grave deste orçamento!) vir dos impostos, quebrando ainda mais o Estado Social, ou seja, a intensificação do trabalho vai aumentar, mesmo com um PIB baixo. E vejam, caros amigos, o que Bruxelas exige é que com base nessa queda do PIB se façam ainda mais cortes porque o PIB caiu…São loucos do ponto de vista humano mas sabem fazer contas. A narrativa é esta – aumento de 4% da gasolina, diz o PS, 5% diz Bruxelas. Agora escolham. Escolham? Entre cortar um braço e dois?
Mas é preciso sermos honestos – levar até às últimas conclusões o que defendemos – quem tem afirmado que a alternativa não se pode dar no quadro da UE e do Euro tem razão – é impossível, porque a produtividade alemã é o dobro da nossa e a moeda esmaga-nos e porque a União Europeia não é uma União de cavalheiros, é um mercado de trabalho concorrencial. Mas a questão também não se resolve com a autarcia do país, quem o afirma está correcto. Estamos a chegar a um beco, em que só quem voa encontrará o caminho. Quem tem medo de voar vai ser esmagado.

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3 thoughts on “Voa, «eu queria de ti um país»

  1. Na zona Euro não existem políticas económicas racionais o que faz com que os países estejam cada vez mais vulneráveis. Portugal é só um prenúncio do que se passa nesta “união”, caminhamos a passos largos para uma fragmentação e se nada de diferente fôr feito esta europa vai simplesmente desaparecer, todo o tempo de inação apenas terá o efeito de potenciar o estrondo, o dramático disto tudo é que ninguém parece saber como se saí da moeda única sem se regressar à “idade da pedra”, também por isso parece-me pouco provável uma posição de rotura instigada por algum dos país.

    • Vivemos em sociedades onde não existe democracia, isto não pode ser tido como um pormenor, a miséria moral e intelectual que esta visão implica é por si só esclarecedora, não percebo como as pessoas não vêem reflectido no espelho o que este insiste em mostrar.

  2. Parece-me que o que você quer dizer é que a crise afeta os trabalhadores e torna-os mais dóceis e felizes por trabalharem a qualquer preço (esse foi o objetivo principal da estratégia neoliberal do Reagan e da Thatcher).
    Há só um pequeno senão: é que o poder de consumo dos trabalhadores – que são a maioria da população – vai diminuir drasticamente e então isso afetará quem investe na produção, não? Será que se vai voltar à estratégia financeira de levar Estados e populações a endividarem-se para consumir, com os resultados conhecidos?
    Por outro lado, a nível macro, o crescimento económico será difícil e isso é uma contradição do sistema, não? Como V. diz, é “a destruição de riqueza que está a fazer aumentar as taxas de lucro”. Mas até que ponto, o sistema (capitalista) comporta essa deriva? Vai reinventar-se, como tem acontecido até aqui?
    Em minha opinião o problema central (e o problema não é apenas da União Europeia) é este: mesmo um sistema centrado no lucro tem de perceber que, se não encontrar mecanismos de redistribuição, perece

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