Povos sem Estado

A teoria dominante diz que os povos sem Estado não se governam. É o caos. Sem dominantes os dominados são bichos selvagens. Há um tipo de marxismo – do que conheço da obra não pode ser atribuído a Marx – que glorifica os dominados apoiando ou desculpando sempre as suas atitudes, uma espécie de são «pobres têm razão» (em tempos de abraço ao assistencialismo e com o galopante desemprego talvez seja hoje, infelizmente, dominante). Há um marxismo, que esse sim, creio que pode ser atribuído a Marx e a uma tradição de diferentes correntes, e que diz o seguinte: a humanidade pode mudar para melhor mas pela dimensão objectiva da produção de valor só pode mudar para melhor se essa tarefa foi genericamente assumida pelos dominados, isto porque ao leme do poder estão sectores que não mudam de pele nem de natureza – a acumulação é de uma racional-irracionalidade imparável e é ela que move estes sectores. Um pequeno intróito para constatar o seguinte: assistimos todos os dias a uma das cenas mais bárbaras da nossa vida na Europa – a chegada de dezenas de pessoas por mar à Grécia, com mortes diárias. Quem está lá a recebê-los? O Estado? A União Europeia? A Comissão Europeia? Os Governos da Europa? Não, são voluntários. Também, é certo, não estão milhares de desempregados deprimidos ou pobres desmoralizados, ou trabalhadores que deixaram de compreender o que é o mundo. Há milhares de cínicos, e muitos são pobres e muitos são trabalhadores. E não têm sempre razão. Mas o facto inescapável é este – são as pessoas comuns, os «de baixo», que estão todos os dias nas praias a recolher pessoas e a tapá-las com as roupas que outras pessoas comuns estão a doar. Não é quase nada face à dimensão apocalíptica da tragédia, são algumas centenas de pessoas, com o pouco que têm, mas é o que sobra. Não são os Estados, nem é quem tem poder. Está neste grupo de pessoas, a mesma minoria que um dia parou uma fábrica onde morriam crianças a trabalhar 12 horas, que um dia desertou de uma guerra, que um dia abriu as portas a um clandestino, as sementes de outro mundo, onde nenhuma criança dará à costa a fugir de uma guerra.

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5 thoughts on “Povos sem Estado

  1. Atenção, que a maior parte destes “refugiados” aparentam ser, na verdade, imigrantes que vêm é à procura de mais dinheiro (e que não querem saber de lutar por melhores condições de vida nos seus próprios países). De acordo com a UE, 60% são migrantes económicos, que estão a usar o estatuto de “refugiados” para poderem imigrar para a Europa. (https://www.rt.com/news/330284-economic-migrants-eu-refugees/)

    E, quanto aos verdadeiros “refugiados”, o uso deste termo tem muito que se lhe diga… Pois, estes não vêm a fugir de quaisquer bombardeamentos ou tinham a sua vida em risco, antes de se lançarem ao Mediterrâneo – mas, estavam antes, a salvo, em campos de refugiados na Turquia e afins.

    E, é também (muito) importante questionarmo-nos: Porque razão não escolhem antes estes “refugiados” lutar pela libertação das suas pátrias? Não estariam as situações nos seus países de origem a caminho de ser resolvidas, se tivessem eles antes escolhido a Luta em vez da cobarde fuga?

    Por estas e por outras, é que – apesar de ser eu uma pessoa com preocupações sociais – não tenho vontade alguma de ajudar estes “refugiados”… E, a ajudar directamente alguns dos afectados pela guerra civil síria, por exemplo, seria ajudando as YPG e as YPJ a libertar a sua pátria.

    E, têm mais sobre o que tenho eu a dizer sobre isto, nas seguintes hiperligações:

    http://blackfernando.blogs.sapo.pt/whats-up-money-money-money-84454
    http://blackfernando.blogs.sapo.pt/estimulos-a-imigracao-siria-para-dentro-84222
    http://blackfernando.blogs.sapo.pt/imigracao-e-muito-util-para-alterar-as-83829

    Longa vida às libertárias YPG e YPJ!

    • Achei curioso o facto de ter sentido necessidade de referir que é uma pessoa com preocupações sociais porque penso que o que descreveu foi um cenário em que a lei dos mais fortes prevalece. Pensar na morte como desígnio para a vida de alguém é no mínimo desumano.

  2. Também, quem está a acolher estes “refugiados” são, acima de tudo, os próprios governos europeus – que incentivam esta imigração, com subsídios e declarações públicas de que estão dispostos a acolher estas pessoas às centenas de milhares. E, até já pelo menos uma ONG (certamente, ligada ao poder estabelecido) foi apanhada a fornecer equipamento náutico a quem queria atravessar o Mediterrâneo.

    À excepção dos eternos lavados ao cérebro pelos média de massas (que tentam comover, com reportagens emotivas, as pessoas para a situação destes “refugiados”), a grande maioria dos cidadãos comuns está mais preocupada em tentar sobreviver numa Europa em Colapso económico – enquanto assiste, na televisão, a reportagens sobre ofertas de alojamento a “refugiados”, quando há quem, nativo destes países europeus, esteja a dormir na rua.

  3. Mas, tendo eu feito o anterior aparte… Quero reiterar que, de facto, concordo com a tese principal da colocação que foi (por si) feita.

    Também eu tenho (e bem) consciência de que não são precisos governos ou estados, para que as pessoas se organizem. E, um dos melhores exemplos disso (se ignorarmos a parte semicaótica, de “justiça” nas ruas, que ocorreu – e que, aliás, não foi exclusiva do grupo em causa) penso que tenha sido o modo como se organizaram os anarquistas na Catalunha do início da Guerra Civil Espanhola. Onde, não só as coisas funcionaram, como o nível de vida das pessoas até melhorou.

  4. Os pobres, como todos, têm a razão da sua circunstância, a nossa luta pelos outros é a luta por nós próprios, não existe dignidade em relações desiguais, muito menos seres dignos.

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