Sorti de la république

Ontem em Paris, na Praça da République, à saída do Metro fiquei na dúvida se a Avenue de la République, para onde tinha que ir, ao encontro de um amigo, era a da direita ou da esquerda. Entrei numa loja – onde queria comprar algo – e aproveitei e perguntei às duas empregadas, senhoras jovens, qual delas era a rua. Olharam para mim com delicadeza, olharam uma para a outra, sem qualquer interesse especial em mim ou na rua, até com algum espanto, e disseram, com educação, que não sabiam onde ficava. Trabalham a vinte metros de uma das principais ruas de Paris e não fazem ideia onde estão, nem estão interessadas. Das escadas surgiu a patroa – percebi pelo andar de ombros direitos, gestos educados, olhar directo (já repararam certamente que o trabalho que fazemos muda a nossa postura, e que a nossa postura, um pequeno olhar, um jeito de andar, nos diz a classe social a que pertencemos?) -a tal classe que «já não existia» descobre-se em segundos de contacto visual…

 

Claro que ela me respondeu logo que era “a da esquerda Madame”. Dejours, é também francês mas o seu nome correu o mundo. Grande estudioso do trabalho, o psicólogo e investigador conseguiu provar a relação entre os suicídios da France Telecom e os métodos de gestão da empresa. Nos seus trabalhos explica como para evitar a loucura – e os locais de trabalho, mesmo hoje os serviços, industrializados, têm uma gestão fabril que impulsiona a loucura – os trabalhadores, dizia, criam técnicas de resistência à loucura que implicam grande sofrimento psíquico – entre eles desinteressar-se pelo trabalho e o que a ele está associado. Sofrem para não enlouquecer, em resumo. Marx chamava a isto alienação, estranhamento. O homem-máquina, o homem animalizado que no trabalho, que deveria ser o espaço criativo, se desumaniza.

Rosa Luxemburgo, olhando a tristeza dos desempregados, argumentava que a luta social colectiva com responsabilidade (assumindo acções e responsabilidade, palavra e gesto) tirava às pessoas essa sensação de desamparo, e dava-lhes um sentido de projecto criativo, colectivo. É dela a famosa frase “Quem não se movimenta não sente as correntes que o prendem”. No fundo para mudar a vida era preciso mudar de vida.

 

Natália Ginzburgo escreveu uma belíssima crónica depois da sua visita a Inglaterra em 1961, esse país ”bonito e melancólico (…) um país que resolveu os problemas mais essenciais da vida, as enfermidades, o desemprego, a velhice, os impostos”. Mas a crónica contínua. Na Inglaterra, escreve ela, “Os olhos das inglesas têm a fixação atónita e vazia das ovelhas nas imensas pastagens. Quando saímos da loja o olho da vendedora nos segue atónito e vazio, sem ter formulado nenhum tipo de julgamento sobre nós, nenhum pensamento. Assim, se por acaso acontece de encontrarmos uma vendedora menos bronca, nos sentimos dispostos a comprar toda a loja, só pela surpresa”.

Afinal a Inglaterra não tinha resolvido os problemas essenciais da vida. Nem a França. Onde quem trabalha na pátria da República, ironia dolorosa da história, não sabe sequer onde fica a Avenida da República.

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One thought on “Sorti de la république

  1. 🙂 Não podia deixar de sorrir ao ler o que escreveu sobre a possibilidade de se reconhecer a classe social de alguém através de elementos que o próprio não percepciona – imagino a desilusão daqueles que se acreditam capazes de ludibriar até os espíritos mais atentos – mesmo sendo verdade essa acção que fala não pode ignorar um aspecto relevante da nossa condição que é o facto do nosso comportamento ou forma de estar variar de acordo com circunstância, não somos sempre o mesmo, dependemos sempre de algo que nos é exterior para sermos nós próprios.

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