Oh Lopes, my dear!

Um «doutorando em gestão de saúde», de sua graça Mário Amorim Lopes, veio a público defender o salário de 1,9 milhões de euros de António Mexia ofendendo-me, e afirmando que «Um cirurgião com 30 anos de carreira é um assistente graduado sénior (chefe de serviço), que recebe, no regime de 40h, 5.063,38€/mês de salário base, um pouco acima dos tais 2.200€. Se a isto acrescentarmos as cirurgias que faz fora do horário laboral o valor tende a duplicar, em alguns casos quadriplicar. Não é nada invulgar que um neurocirurgião especializado ganhe 20 mil Euros/mês.». Não é nada invulgar que estas notícias acabem na capa de um jornal, colocadas por uma agência de comunicação, passadas pela mão de um editor que leva a sério as contas apresentadas por estes jovens ansiosos por chegar aos corredores do Ministério da Saúde para traficar com um bem essencial, a saúde de toda uma população.

Este candidato a gestor hospitalar, irritado com as minhas «pérolas e sombra dos olhos», que, segundo ele, são a base da audiência do vídeo onde falo do tema, merece a nossa atenção. O salário que referi líquido é 2200 euros, líquido salientei, e inclui já o subsídio de alimentação, o subsídio de Natal em duodécimos e 12 horas de urgência semanal. Quem faz privada ganha ainda menos, porque deixa o regime de exclusividade. Mais, todo o salário é consumido (casa, alimentação, gasolina) e portanto recai sobre ele impostos regressivos – IVA, etc. Já o salário de 1,9 milhões de António Mexia é pago em grande parte em dividendos, protegidos de facto fiscalmente ao contrário dos rendimentos do trabalho, e tudo o que este consome (carro, gasolina, casa etc. – tudo benesses dos gestores) entra como custo de produção das empresas e portanto é repassado para o consumidor final, ou seja, pago por nós.

Diz ainda este futuro gestor que António Mexia ganha o que ganha porque faz «investimentos estratégicos». A teoria do valor-trabalho para estes licenciados em economia é mecânica quântica porque o que eles conhecem de economia é algo que eu resumo em duas linhas: dizer uns cretinismos em inglês, ir para empresas privadas que foram durante anos capitalizadas com dinheiros públicos, que por isso se tornaram super-rentáveis, chegar lá, parti-las às postas, colocar em subcontratação os trabalhadores, pagar-lhes mal e, à medida que despedem trabalhadores vão distribuindo «resultados positivos», os tais «investimentos estratégicos». E quando está tudo distribuído anunciam a falência da empresa, pedem ao Estado para assumir os prejuízos porque há o «risco sistémico» – foi assim com a Banca, a PT e assim será com a EDP e com o Serviço Nacional de Saúde se em vez de médicos, utentes, profissionais de saúde a gerir a saúde, como era até aos anos 80, tivermos estes «business man». Este, por exemplo, ao primeiro olhar sentimos as pernas trémulas, este…George Clooney charmoso que não deixou de reparar nas minhas pérolas. Oh Lopes, my dear!

image_preview

Para um curso sério sobre teoria do valor trabalho o professor da USP de economia, meu colega e amigo Jorge Grespan.
https://www.youtube.com/watch?v=5Xp3UFM3nPc

Advertisements

2 thoughts on “Oh Lopes, my dear!

  1. Alguém deveria dizer à Dra. Varela que o facto de um autor (como Marx) ser adorado e estudado não torna as suas teorias certas. Era giro que a Dra. Raquel Varela explicasse a quem o Cristiano Ronaldo está a roubar quando ganha um milhão de euros por dia.

  2. Apesar de, no plano conceptual, a após ter trocado algumas opiniões com o jovem Amorim, tenho a dizer-lhe isto: se é verdade que a actual carga fiscal penaliza fortemente o trabalho por conta de outrem, se é verdade que tal é mais notório em relação aos TqEFP, não é menos verdade que, efectivamente, há quem consiga auferir os montantes referidos pelo jovem (até mais), no entanto, tal “oportunidade” não se aplica a todos.
    Quanto à sua afirmação no seu perfil do Facebook, que “quando a gestão era feita por médicos e não por gestores nunca houve nem de perto o desperdício, a irracionalidade de serviços, e os negócios obscuros que existem hoje com o dinheiro do SNS”, lamento mas tal estará bastante longe da realidade. A começar pela generalização, errada (não o são sempre ?).

    Claro está que entre o concreto (publicamente conhecido) e o factual (internamente conhecido no meio), houve muito desperdício, muita irracionalidade muito negócio obscuro com o dinheiro do SNS, independentemente do perfil do gestor e, nem sempre, com a anuência directa ou, sequer, conhecimento deste.
    O que se poderá afirmar é que o interesse público tem sido defendido de forma discricionária – o “público” tem sido, de há uns tempos para cá, grandes empresas privadas da Saúde, cujos negócios têm sido devidamente gizados dentro e fora dos gabinetes ministeriais.
    Nesta equação, os profissionais estão a ser reduzidos ao elo mais fraco, sem sombra de dúvida, e com alguma (muita, em muitos casos e a muitos níveis) responsabilidade no estado a que o SNS tem vindo a ser conduzido.

    A questão do SNS, do Estado, da Saúde, dos cidadãos, dos profissionais, dos orçamentos, dos modelos de gestão, é bem mais complexa do que aquilo que o jovem imberbe terá capacidade para perceber. E também é mais complexa do que uma mera (falsa) questão de trabalhadores vs gestores…

    Cumprimentos

    Hugo Rego

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s