Marcelo, o candidato do Bloco Central

E se Marcelo fosse candidato de uma parte do PS? Daquele pedaço que define aquilo que realmente conta num partido como o PS? Se o determinismo soviético apoiava-se nas grandes narrativas sem sujeitos/liberdades individuais, ao mesmo tempo que promovia um culto monárquico dos líderes, a comunicação social hoje concorre, com menos mau gosto que as estátuas de Estaline, é certo, para esta tese de que o indivíduo é tudo, a classe social nada, nem existe essa coisa «das classes sociais». Ignora classes sociais e os seus interesses, que não são só definidos pelo dinheiro, claro, isso é sociologia de pacotilha. Classes existem, e cada vez mais definidas com a massiva proletarização dos sectores médios que caíram vários andares na escala social. Classes distinguem-se pelos rendimentos (salário, renda, juro, lucro) mas também pelo território, cultura, espectativas, origem familiar, e outros factores. Ninguém concorre a presidente da República para se representar a si próprio mas sim a um conjunto de interesses, de uma determinada classe social ou fracção de classe, isto é parte dessa classe. Daí que seja errónea a ideia dos «independentes» e dos que dizem representar «Portugal». Quer gostem ou não Portugal somos todos e todos pensamos coisas algo diferentes para o país: há os que querem que o Estado continue ao serviço da remuneração de activos falidos; os que querem recuperar salários ficando no euro e pagando a dívida, são os naïfs; há os que querem atrasar a marcha do capitalismo protegendo as pequenas empresas da concentração e fixação dos preços das grandes, há muito mais ainda, e há, como se sabe, uma maioria de pessoas que quer ter um emprego, ter tempo e capacidade para viver desse trabalho – «o povo piegas».

O PS é um partido que ainda representa sectores de trabalhadores com direitos – na função pública e nos transportes, por exemplo; representa o sector bancário, grandes empresas privadas, construção; representa algum sector ligado à Assistência Social, e mais ainda. Como todos os partidos o PS tem uma direcção política estratégica – que não são necessariamente as figuras públicas – composta de homens, na sua grande maioria «treinados em 74-75», que sabem mais a dormir que todos os militantes, simpatizantes, activistas e deputados acordados. E que chegou à conclusão que Marcelo era o seu candidato. Entre desculpas para fora de que «um candidato não queria» e o «outro não podia» o PS deixou o caminho aberto a Marcelo Rebelo de Sousa, promovendo a dispersão de candidaturas (não apoiando a de Carvalho da Silva, por exemplo), garantindo assim que, apesar de haver alguma incerteza no apoio parlamentar, o Estado e o regime manter-se-ão porque haverá um homem na Presidência da República cujos interesses são os da estabilidade do sistema financeiro, isto é, da contínua e progressiva degradação do sistema laboral.

Os militantes do PS não estão a escolher entre Belém e Nóvoa porque António Costa e a direcção histórica já escolheu por eles. Em política nem tudo o que parece é, mas neste caso estava demasiado óbvio que Marcelo é o candidato à Presidência do Bloco Central, do PSD, do PS e do CDS, Bloco Central que ele, Marcelo, que anda nisto não há 10 anos na TV, mas há 50, mal começou a crise de 2008 avisou ser «um desejável», cito, «”arranjo”, que tem o beneplácito de muitos empresários». Que os militantes do PS não tenham percebido a música que andaram a dançar é que é curioso.

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