«Paguem aos profissionais com dignidade»

Em menos de 24 horas o curto vídeo onde falei de desigualdades e do salário dos médicos em Portugal foi visto por 100 mil pessoas. Recebi na sequência dezenas de cartas de médicos, alguns dos quais me enviaram a folha de pagamento. Isto porque a reacção ao vídeo foi esta: 99% das pessoas mostrou-se indignada com o salário em exclusividade de um médico com 30 anos de serviço, que incluía o duodécimos do subsídio de Natal!, subsídio de alimentação, prémio de exclusividade, urgências e tudo o mais ser de 2200 euros líquidos. E 1% disse que eu estava a mentir, era «impossível um médico ganhar isso».

Os jornais dão notícias erradas a este respeito – naturalmente as tabelas salariais dos médicos do SNS são públicas, de acesso livre a todos. Eu mostrei o recibo de Novembro de 2015 mas tenho na mão muitos mais recibos e as tabelas, além de coordenar um estudo académico dos custos/serviços do SNS e da evolução das carreiras médicas em Portugal. Tão pouco devem assumir os leitores que os médicos completam o salário no privado – quem faz privada ganha ainda menos no público, e deixa de ter vida própria, os consultórios estão asfixiados com leis desde que explodiram os hospitais privados dos grupos financeiros Mello/Siemens/Banca, e os próprios salários dos médicos no privado caíram arrastados pelo sector público. Para reverter isto é preciso uma resposta política menos corporativa, e não são só os médicos que são corporativos, são-no, é verdade, como todos os sindicatos em Portugal são infelizmente corporativos – cada um cuida de si…. E uma parte da população também o é, e olha para os médicos como se todos fossem um grupo de agiotas dispostos a comerciar com a nossa saúde. Como sabemos, todos nós, não há Deuses mas a esmagadora maioria dos médicos em Portugal ganha mal, abaixo do que produz, muito abaixo, ganha entre 1330 a 2200 líquidos (topo de carreira) e isso é uma ignomínia. Abaixo o testemunho do cirurgião João Luís Barreto Guimarães, que aqui publico com a sua autorização, além de poeta – ainda há poetas neste país, que alívio! – faz uma coisa tão importante como passar os dias num hospital público a reconstruir os seios de mulheres, parte delas fruto de doenças gravíssimas. Gente querida, que com generosidade aqui me segue, precisamos de mais visão crítica sobre as notícias, de quem as escreve, de quem as publica e de quem as lê, e também mais respeito pelo trabalho de todos.

Por João Luís Barreto Guimarães

A mim querem pagar-me 6 euros por hora por prevenções ao fim -de-semana. Tenho de estar disponível sextas à noite, sábados ou domingos até segunda de manhã as 8h. Não pagam presença física se vier ao hospital. É sempre prevenção.

Faço parte de um grupo de profissionais que perdeu os melhores anos da sua vida, cerca de 2 décadas para estar em condições de ganhar – com uma muito maior responsabilidade porque lida com a vida humana – menos do que a minha querida empregada faz em minha casa por 8,5 euros, sem impostos. E à semana. Ela não rouba tempo ao lazer e a família para o fazer.

Eu gasto mais de 6 euros de gasolina para me deslocar ao hospital. Não fui eu que escolhi esta vaga a 20 km de casa. Foi ela que me escolheu a mim. Foi a que abriu. Faz algum sentido a tutela – que tem a responsabilidade de gerir os dinheiros públicos em submarinos, estádios, bancos e urgências, assalariar as classes profissionais dos médicos, enfermeiros, técnicos e auxiliares só para poder dizer que proporciona saúde aos cidadãos? À custa do altruísmo e da deontologia dos outros? Sem que haja uma perspectiva de melhores condições à vista? Dia após dia após dia? Porque não é só na noite em que acontece uma tragédia. É fazer do trabalho precário um estilo de vida! Gorando as expectativas de 2 décadas. Humilhando a arte da medicina.

Porque há alguns de nós que vivem, depois de todo aquele investimento pessoal com 1700 euros por mês. Sim, gente! Há alguns de nós – muitos mais do que vocês imaginam – que só trabalham nos hospitais. E aquilo que seria um excelente ordenado para alguém sem formação técnica ou universitária, é uma miséria para a elite científica de um país. É este país sem horizontes que queremos? São estas as expectativas para os mais jovens? Depois queixam-se de que os cérebros imigram.

Não passem para os médicos culpas que pertencem a tutela. Ninguém aceitaria pagar para ir trabalhar num domingo à tarde ou num sábado à noite. Juramento de hipócrates? Deixem-se de demagogias. Perante cada doente, dá-se o melhor. Perante gestores e tutelas, não é de aspectos clínicos que se fala.

Não se fazem omeletes sem ovos. Querem saúde para ganhar votos? Não paguem aos bancos. Paguem aos profissionais com dignidade.

Advertisements

6 thoughts on “«Paguem aos profissionais com dignidade»

  1. Quantos queriam ter tido a possibilidade de fazer o investimento pessoal referido ou quantos não teriam hesitado em “perder” os “melhores” anos das suas vidas a fazer algo que realmente os preenche? As elites continuam a acreditar que têm um qualquer direito divino sobre os restantes, penso que acreditam que são o resultado de si próprios, este confortável engano não distingue ninguém apenas destituí. Construir uma sociedade de cima para baixo tem tão de desinteressante como de inútil.

    • Estudassem. Ou o Sr. Anónimo pensa que entrar em medicina e tirar uma especialidade nos cái no colo? Não há pachorra para estes comentários. Se quer que o levem a sério, identifique-se ao menos.

  2. Numa casa onde alguns roubam o pão, todos ralham e ninguém tem razão…
    Antes do mais era preciso que TODOS abominassem esse roubo! Que Todos se batessem por uma VERDADEIRA JUSTIÇA totalmente subordinada ao sentido de Humanidade.Como isso não acontece, TODA a gente resmunga julgando-se dona da razão…ATÉ OS QUE ROUBAM DESCARADAMENTE!IMPUNEMENTE!

  3. Caro Sr. Anonímo…
    Teve a mesma oportunidade que todos os portugueses… não a usou!!!! Construir um sociedade sem topo…. dá nisto! Liberdade de expressão… cada um diz o que quer… e o não sabe!
    E ainda por cima não sabe assinar!!!
    Analfabetismo cobarde!
    No dia em que o Tino de Rans for Presidente da Republica… o Sr. anónimo terá a sua sociedade de sonho!!!

  4. Triste realidade esta.
    Estudar como poucos o fazem, lidar diariamente com o risco de contaminação, sem prémios de risco, fazer horários absurdos mas que poucos reconhecem, identificam, acreditam. Ter na frente, muitas vezes, doentes que roubam, ameaçam, são grosseiros, exigentes, absurdamente arrogantes, quando o médico faz todos os possíveis por reduzir o sofrimento, promover a melhoria de vida, um novo dia no futuro.
    Tenho 5 médicos em casa. Trabalham dia e noite. Dormem assim que se sentam. Respondem a todas as solicitações e no fim, são considerados ricos, agiotas, por uns míseros 1000 euros.
    As estatísticas dizem que existe um médico, lá pelos reinos do Algarves, que ganha uns milhares por mês. Mas quantos médicos ganham o que referi? 20, 200, 20.000?
    Porque será que em Portugal, é mais relevante esconder a verdade atrás de estatísticas que pouco ou nada se aproximam da verdade, ou reconhecer a verdade e dar justiça e reconhecimento pelos que trabalham duro, sem descanso, de forma profissional, sem baixar os braços?

  5. Pingback: «Paguem aos profissionais com dignidade»

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s