Se nada há de novo

A última vez que li mais de meia centena de livros de literatura num ano foi numa gravidez de risco de 8 meses que passei em grande parte deitada. Foi a verdadeira oportunidade. Melhor só na prisão. Não havia facebooks, telemóveis com internet e eu tinha apenas duas cadeiras para terminar o curso. Todos os anos leio mais trabalhos, teses, artigos, custos e dívidas, acidentes de trabalho e greves, a insustentável realidade parada, e menos literatura, o que me deixa até um pouco apoquentada. A literatura é uma fonte histórica, quando não a própria história, é o nosso encontro com a criação, é o que nos aproxima de uma compreensão da totalidade da sociedade e é insubstituível por bons resumos, gordas de jornais, entrevistas ou palestras, por mais densas que sejam. É a realidade em movimento, um filme, muito mais verdadeira, quando é boa literatura, na explicação do funcionamento das sociedades do que uma fotografia estatística.

Do muito pouco que li este ano o mais importante para a minha vida, que mudou o meu olhar – não é fácil mudarmos, como sabemos somos uns animais embevecidos pelo hábito – foi Os que Sucumbem e os que se Salvam de Primo Levi, o último livro dele que tinha por ler. É muita coisa, podia escrever horas sobre o livro, que não tem uma palavra a mais, a quantos livros eu não tenho vontade de cortar o «a mais», o palavreado!, mas é, dizia, um retracto moral da condição humana, com vítimas e algozes, sem «ficar em cima do muro». Levi tirou Auschwitz de Auschwitz e colocou a coragem e o horror na condição humana e na história, chamando-nos, a todos nós, a reflectir sobre o que fazemos hoje e o que teríamos feito ontem se soubéssemos. É um tratado filosófico e psicanalítico sobre o momento, angustiante, de escolher; e a tragédia – o sofrimento psíquico e a pusilanimidade – de quem não escolhe escolher.

Da «grande literatura» e da compreensão histórica O Sonho do Celta, de Mário Vargas Llosa, talvez o melhor escritor liberal-conservador, magnífica descrição do trabalho forçado, do progresso, nas suas contradições, da história da Europa e dos heróis da história. Li dois policiais do Mário Conde, o cínico detective cubano que não acredita no regime comunista cubano, nem em comunismo real em país algum, mas guarda em si uma semente de dúvida face à humanidade poder mudar – é o estado psíquico de um homem entre o cinismo e a redenção. Só no mundo. Como todos os bons detectives, apaixona-se, adora comer e desrespeita o poder do Estado. O último é passado no bairro chinês de Havana, entre pobres imigrantes chineses, da China que, recordo-me desta frase, que cito de cor, «só conseguiu construir uma muralha contra as invasões, foi a revolução chinesa». Li, reli, e ainda estou a ler Relação de Qualidade. Penso em Ti, do psicanalista António Coimbra de Matos, o homem que trouxe a psicanálise do passado, das relações do passado, para o presente e para a construção do futuro e a noção de revolta contra o sofrimento no trabalho e a depressão. Finalmente em português a História do Partido Bolchevique do Pierre Broué, editada pela Sundermann no Brasil, é com muita distância face a qualquer outro o melhor historiador da revolução russa, um dos grandes historiadores que França deu ao mundo, melhor ainda que Braudel. Deleitei-me com a descrição da travessia na Europa e a viagem a Portugal em 1866 de Hans Christian Andersen, em Uma Viagem a Portugal, tempo em que se atravessavam fronteiras sem passaporte, o que deixou Andersen a sentir-se «como se tivesse chegado à minha pátria». Finalmente a magnífica edição de Os Sonetos de Shakespeare, traduzidos por Vasco Graça Moura, oferecidos pelo meu amigo Rui David, que é um pessimista, por isso lhe ofereço um dos poemas que ele me mimoseou: «Se nada há de novo e quanto existe existiu já, como erra o pensamento que inventa sem razão e em dar insiste ao que nasceu segundo nascimento!».

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One thought on “Se nada há de novo

  1. Muito obrigado Raquel. Já ando a segui-la a algum tempo na esperança de indicações de litertura sugeridas por si.

    Infelizmente acordei para entender a importancia da leitura (e o prazer) não muito cedo. Não digo tarde porque sei que nunca é tarde, não é mesmo? Tenho menos de 30 e mais de 25. E, esse prazer que veiu gradualmente à 3 anos hoje tem um grande significado para mim e ocupa uma parte do meu tempo.

    Para a Raquel ter uma ideia eu todos os anos traço objetivos. Este ano pela primeira vez tenho incluido leitura diária de 100 páginas por dia. Não ria, eu sei que é miserável e que tenho de esforçar-me mais afinal tenho muito tempo perdido. Sabe, digo-lhe isto sem nenhum pretensiosismo desde que mudei os meus hábitos e comecei a dedicar uma parte do meu dia para ler comecei a ganhar consciencia do meu tamanho como ser humano. Antes de ler achava-me bastante bom em vários aspectos. Inclusive como ser humano. Hoje eu sinto-me pequenino. A minha forma de estar foi bastante afetada. Houve um tempo que nem conseguia falar com ninguém e que me isolei bastante. Percebi como sou ingrato, ignorante e com a mania das grandezas. Percebi que estava a gastar o meu tempo em coisas erradas: bens de consumo, status (de alguma forma), (…) não vou continuar porque a Raquel já percebeu, uma das leituras que nos faz refletir é o livro “Ética para jovens”. Já em adolegente em relação aquele sentimento de posse eu travei por mim próprio o livro, agora lido mais tarde, veiu dar-me força afinal não tenho ninguém na minha vida que pense como eu, e basta ligar a tv para entender que nem fora.

    Quando era pequeno lembro-me de ficar fascinado a ouvir o professor de história. Lembro-me de dizer para mim mesmo “um dia quando crescer quero aprender história a sério”. Tenho sorte porque não me perdi e hoje aprendo história através dos seus livros também 🙂

    Obviamente que sinto necessidade de fazer algum curso de graduação mas isso é outra “história”. Nunca fui bom aluno por motivos que não quero identificar, mas sempre acreditei que um dia ia ter paz para o ser. Claro, que descobri depois que é preciso trabalhar muito. Mas, posso dizer que cada dia que passa estou a melhorar. Comecei a olhar para uma folha durante 9horas (verdade) nessa semana o que lia não conseguia reter quase nasa (não sou maluco nem tenho deficiencia de aprendizagem, mas não tive muitas opções para estudar) e hoje aprendo a uma velociadade posso dizer, confortavel. Além, claro, de chegar a casa e reler e fazer exercicios. Na escola somos alunos (assistimos a aula) em casa (estudantes) porque revemos tudo e fazemos exercicios. Agarrei em livros e aprendi como se aprende.

    Hoje na aula um grupo estava a apresentar o seu trabalho. Tudo muito vago. Senti-me muito mal porque o ativista e musico que eles estavam a apresentar lutou muito na altura da guerra do Vietnam. Senti-me na obrigação de intrevir e disse o que sabia sobre o assunto. Sabe aquele calor que sobe no peito? Sabe quando o coração começa a acelarar? Foi a minha primeira vez e senti-me nas núvens. O meu trabalho estava a dar frutos e isso deixou-me muito orgulhoso. No fim até mereci palmas. Descobri também que as mulheres apreciam homens com conhecimento. Agora já sei porque não tenho tido muita sorte com as mulheres (brincar, desculpe).

    Ai Raquel a minha vida está a mudar. E tudo começou quando eu agarrei aquela folha de apontamentos durante 9 horas decidindo que iria fazer o exame nacional e seguir o que acreditava.

    Escrevi de mais e falei de mais. Não sei a Raquel nem precisa dizer nada e eu falo falo… é a única autora Portuguesa que sigo e aprecio mesmo muito o trabalho. Quero deixar o meu testemunho para aqueles que pensam que a leitura não lhes diz nada. Insistam. Comecem por temas que são do vosso agrado. Depois, a partir dai é muito mais fácil. Desistir de ler é limitarmo-nos a uma banheira. Um espaço limpo, bonito mas limitado. A banheira dá-nos prazer momentaneo. É um prazer quase todo igual – o quente, o frio, a excitação. Com a leitura precebemos que existe além e para além. O livro não só explica como, ele também conta outros. Ainda não entendo a poesia pelo que já vi a poesia ainda esconde mais beleza. Não desistam mesmo de tentar, se vivermos a nossa vida sem nunca ter lido um livro é, na minha opinião, ter vivido numa banheira. Não queiram viver numa banheira quando têm um mundo tão grande e incrivelmente belo para explorar.

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