Literacia económica I

Os jornais enchem-se de notícias sobre desaceleração económica. Vem aí uma crise – é verdade. Mas que crise? Deixarei aqui nos próximos dias um curso resumo, elementar, básico e simplificado do funcionamento das crises e das propostas políticas que existem face a elas.

 

Antes precedido de «limpar a casa» de equívocos. Ninguém como Marx tem uma teoria das crises económicas mas Marx não é o dogmatismo que dele fizeram os adeptos da burocracia soviética, que decapitaram, para usar uma palavra dos editores das obras completas hoje, a obra de Marx com reduções e simplificações. Marx é também desconhecido nas universidades e quando é estudado é numa vertente superficial qb que é confrangedora, atribuindo à sua obra banalidades ou conclusões absurdas, como Marx não «previu a existência de uma classe média». Na verdade foram publicados no ano passado 15 volumes de Marx, 15!, ligados ao estudos do Capital – para os decifrar há uma turma de mais de 100 investigadores editores pagos pela academia alemã a trabalhar em meia dúzia de países – só para a letra de Marx e edição. Existe depois um grupo de economistas marxistas, pouco mais de três dezenas, que no mundo fazem este estudo sistemático. Tão pouco os leitores de jornais terão acesso a esta produção. Faço aqui um resumo elementar, de divulgação científica, que é muito simplista, mas como se trata das nossas vidas, e dado que a literacia dos portugueses surgiu abaixo do Burkina Faso num recente inquérito sobre conhecimentos económicos, inquérito aliás que dava como certas respostas erradas – os autores do inquérito também não se podem orgulhar…

 

1) As crises são a norma no modo de produção capitalista. O Capitalismo é produção de capital, é indiferente se são sabões, armas ou livros, o capital vai onde dá de volta mais capital e onde dá de volta mais depressa esse capital (rotatividade do capital ou, na economia vulgar «retorno do investimento). Por isso, apesar da má alimentação dos portugueses, produzimos  eucalipto e não nogueiras, castanheiros, etc. Porque esses dão uma riqueza em 40 anos, comida, e o outro dá papel e lucro em 9. Produzimos cortes no sector público porque eles dão lucro anualmente (em remuneração dos juros da dívida) mas não produzimos bons profissionais num ensino de alta qualidade ao longo de 30 anos.

2) Essas crises são marcadas por meia dúzia de factores. É polémico entre os marxistas se eles têm todos o mesmo valor na obra de Marx ou alguns são determinantes. A maioria porém concorda que um deles, a queda tendencial da taxa de lucro, é a «lei da gravidade» da economia. Na concorrência um capitalista vai investindo cada vez mais em tecnologia, máquinas, inovação para produzir mais capital e em menos tempo mas tudo isso são custos (investimento), o valor só vem do trabalho e o trabalho vai sendo reduzido face a esses investimentos – há um momento em que produzir bens e riqueza é incompatível com aumento da taxa de lucro. Lucro e riqueza entram em contradição – é a crise. Precisamos de laranjas e queremos comprá-las mas produzi-las vai originar para o capitalista (empresário, normalmente endividado na banca) uma queda sistemática no preço da laranja – é o que por estes dias se chama de «deflação» (estamos a falar na queda dos preços da produção porque na venda até pode haver inflação por força da maior circulação de dinheiro, pode haver deflação e inflação ao mesmo tempo em dois lugares distintos – o preço de produção caiu mas aumentou por força de políticas monetárias a circulação de dinheiro).

3) Estas crises ocorrem entre cerca de 7 a 10 anos de intervalo. 2007-2016 – tudo indica (o que indica é a capacidade instalada nos EUA, ou seja, a utilização de máquinas, por exemplo, e também o custo unitário do trabalho, ou seja, a subida dos salários face aos custos fixos – capital constante). Por isso todos os economistas marxistas, na análise destes dados, complexos é certo, prevêem crises com muito tempo de antecedência face, por exemplo, a economistas conhecidos como Krugman e Stiglitz. Porquê? Porque estes economistas – keynesianos ou neo keynesianos – acreditam que a origem das crises é um problema de procura/demanda. Veremos que é uma crença, uma «quadratura do ciclo» de uma ideologia, sofisticada sem dúvida, com pontos de interesse, mas sem sustentação empírica na base porque procurar insistir na ideologia política da possibilidade de subir lucros e salários por tempo indefinido no modo de produção, que aliás, é final e não histórico. Ou seja, o modo de produção capitalista não seria para os keynesianos histórico mas o fim da história, ou, como Keynes diria, é indiferente porque no «futuro estamos todos mortos» – a brincadeira é um jogo de palavras para dizer o seguinte: Keynes sabia das limitações de resolver as crises capitalistas recorrendo ao crédito aos salários, o crédito era adiantado mas ele assentava no futuro no corte de salários.

 

Mas é certo que os keynesianos olham para o aumento de salários, que no capitalismo significa crise para o capitalista, como sinal de aumento do consumo e melhoria das taxas de realização do lucro, digamos assim. Quando o aumento de salários significa, no capitalismo, uma redução do lucro, lucro cuja origem é justamente os salários. Claro que muitos partidos de esquerda propõem o aumento de salários com toda a razão política defendendo que a estrutura do modo de produção não pode afectar a melhoria imediata da condição de vida dos trabalhadores. Mas os mesmo partidos, sobretudo em nome de jogos eleitorais e da sua base social tendem a em simultâneo ocultar a origem real da crise e a dizer que com esse aumento a crise resolve-se – fica assim obscurecido o conflito essencial da sociedade: se uns entram em crise os outros saem, não existe objectivamente, cientificamente, qualquer saída que permita aos dois lados sair da crise. A não ser que um país entre em economia de guerra ou na exploração desenfreada de territórios coloniais, em que é possível aí, de forma momentânea, aumentar ambos e dar uma solução para a «economia nacional» como um todo. O custo político é a miséria mundial e mais cedo ou mais tarde o conflito militar estar dentro das fronteiras do país central.

 

4) A crise actual não tem como origem o Brasil, a China, Portugal ou a Roménia, é nos EUA, economia de ponta do sistema, que se fixa o preço de produção ou a queda deste. A economia mundial, mesmo a alemã, é interdependente da dos EUA. A dos EUA também é da China, e da elevação dos salários das montadoras chinesas que trabalham para empresas norte-americanas, mas, digamos assim, ambos dançam mas quem toca a música é quem tem capital e quem tem capital domina a moeda, é os EUA.

Três links:
O curso sobre o seu novo livro sobre O Capital do marxista britânico, dirigente do partido trotskista SWP do Reino Unido, e director do Centro de Estudos Europeus do King’s College de Londres
Um dos melhores blogues de economia pelo economista marxista, cujo ramo político desconheço, Michael Roberts
E a análise da relação periferia centro pelo marxista José Martins, professor aposentado da UFSC Brasil.
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One thought on “Literacia económica I

  1. https://www.informationelite.com/currency-wars/
    http://www.globalresearch.ca/the-real-reason-russia-is-demonized-and-sanctioned-the-american-petrodollar/5402592
    http://www.economicreason.com/usdollarcollapse/world-reserve-currencies-what-happened-during-previous-periods-of-transition/
    Os EUA tendo 4% da população mundial estão a tentar parar o oceano com as mãos…
    Podem dobrar para 20 a frota de porta-aviões , disseminar pelo mundo todo os ataques de drones e bombardear com “democracia” toda a gente , mas no fim a História vence sempre…
    Nem o TPP nem o TTIP lhes vão valer…

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